Tilly Edinger
| Tilly Edinger Johanna Gabriele Ottilie Edinger | |
|---|---|
![]() Tilly Edinger, c. 1930 | |
| Conhecido(a) por | criou e estabeleceu a paleoneurologia |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Nacionalidade | alemã |
| Alma mater |
|
| Carreira científica | |
| Orientador(es)(as) | Fritz Drevermann |
| Campo(s) | Paleontologia |
| Tese | Über Nothosaurus. I. Ein Steinkern der Schädelhöhle (“Sobre Nothosaurus. I. Um molde da cavidade craniana”) (1921) |
Tilly Edinger (Frankfurt am Main, 13 de novembro de 1897 – 27 de maio de 1967) foi uma paleontóloga, pesquisadora e professora universitária alemã.
Edinger foi uma figura central na criação da paleoneurologia, área que investiga a evolução do cérebro em espécies extintas a partir de fósseis. Seu trabalho inovador consistiu em analisar moldes naturais da cavidade craniana, os chamados endocastos, para inferir a estrutura e o desenvolvimento do cérebro de animais pré-históricos. Com isso, ela abriu um novo campo de pesquisa que permitiu conectar a evolução anatômica à evolução do comportamento. Além de seu impacto científico duradouro, sua carreira também simboliza resiliência: como judia, foi forçada a deixar a Alemanha nazista, mas continuou sua produção acadêmica nos Estados Unidos, consolidando seu legado como uma das pioneiras da paleontologia moderna.[1]
Edinger foi uma das primeiras mulheres a estudar zoologia, bem como geologia e paleontologia. Ela também foi a primeira mulher a obter um doutorado na área na Alemanha, em 1921.[1]
Biografia
[editar | editar código]Edinger nasceu em 1897, em uma rica família judia. Sua mãe, Anna Edinger, era uma socióloga alemã, ativista pelos direitos das mulheres e pela paz. Seu pai, Ludwig Edinger, fundou o primeiro instituto de pesquisa neurológica de Frankfurt, o que proporcionou a Edinger diversos contatos na comunidade científica e ajudou a impulsionar sua carreira.[2] Ela era a mais nova de três irmãos.[3] Seu irmão, o neurologista e sociólogo Fritz Edinger (1888–1942), foi morto durante o Holocausto, e sua irmã, Dora Lipschitz, emigrou para os Estados Unidos. Ainda adolescente, Edinger começou a perder a audição; passou a usar aparelhos auditivos e, na vida adulta, era completamente surda sem eles.[4]
Sua educação inicial foi conduzida por diversas governantas, muitas das quais ensinavam em francês e inglês. Sua primeira formação escolar formal ocorreu na escola secundária feminina de Frankfurt, a Schiller-Schule, uma escola secundária para meninas em Frankfurt. Em 1916, ingressou na Universidade de Heidelberg e na Universidade Luís Maximiliano de Munique, um período em que as mulheres começavam a ser admitidas nas universidades alemãs, inicialmente para cursar zoologia, mas depois mudou para geologia e para paleontologia.[1][4]
Em 1920, iniciou seu doutorado sob orientação de Fritz Drevermann, na Universidade de Frankfurt. Em 1921, partes de sua tese foram publicadas na revista Senckenbergiana. Seu estudo sobre o cérebro de Nothosaurus, um réptil marinho do período Triássico, rendeu-lhe o título de doutora em filosofia natural em 1921 e foi também o tema de sua primeira publicação. Seu pai não aprovava que ela seguisse seus passos na neurologia, pois não acreditava que mulheres devessem atuar na ciência, e sua mãe achava que seus estudos eram apenas um hobby, mesmo após o doutorado.[1][4]
Carreira
[editar | editar código]Após concluir o doutorado, trabalhou como assistente de pesquisa em paleontologia na Universidade de Frankfurt, cargo que ocupou até 1927. Nesse ano, passou a trabalhar como curadora de paleontologia de vertebrados no Naturmuseum Senckenberg, onde permaneceu até 1938; essa posição lhe permitiu dedicar-se à pesquisa e ao estudo de vertebrados. Foi ali que escreveu e publicou, em 1929, a obra fundadora da paleoneurologia, Die Fossilen Gehirne (“Cérebros Fósseis”), baseada em sua descoberta de que cérebros de mamíferos deixavam impressões em crânios fossilizados, o que permitia aos cientistas inferir sua anatomia. Ela utilizou endocastos para examinar o interior da caixa craniana, método que se tornaria muito influente na área. Seu trabalho foi fortemente influenciado por paleontólogos contemporâneos como Otto Schindewolf, Louis Dollo e Friedrich von Huene.[1][5][2]
Por ser judia, sua carreira na Alemanha tornou-se muito mais difícil após a ascensão do Partido Nazista ao poder em 1933, quando passaram a vigorar leis raciais contra a população judaica. Durante os cinco anos seguintes, ela continuou trabalhando em segredo no Naturmuseum Senckenberg, sob a proteção do diretor do museu, Rudolf Richter. No verão de 1938, Edinger solicitou um visto para os Estados Unidos, na esperança de deixar a Alemanha. No entanto, após a Noite dos Cristais, em 9 e 10 de novembro, ela foi descoberta no dia 11 e forçada a considerar a emigração por outros meios. Em dezembro de 1938, Philipp Schwartz, ex-professor da Universidade de Frankfurt, utilizou a sociedade que havia fundado, Notgemeinschaft Deutscher Wissenschaftler im Ausland, para ajudá-la. Por meio dessa organização, Edinger conseguiu, em maio de 1939, um emprego como tradutora em Londres.[1] Enquanto isso, os nazistas haviam confiscado todos os seus bens. Seu visto de imigração para os Estados Unidos foi aprovado um ano depois de assumir esse posto.[5][3]
Em 11 de maio de 1940, ela chegou a Nova York e, pouco depois, mudou-se para Massachusetts para trabalhar no Harvard Museum of Comparative Zoology, onde publicou sua segunda obra fundamental, The Evolution of the Horse Brain (“A Evolução do Cérebro do Cavalo”), em 1948, três anos após se tornar cidadã dos Estados Unidos.[5] Ela se afastou temporariamente de Harvard no ano acadêmico de 1944–1945 para atuar como professora de anatomia comparada no Wellesley College, cargo do qual se demitiu após o agravamento severo de sua perda auditiva.[1] Seus estudos sobre cérebros fósseis de cavalos demonstraram que a evolução ocorre como um processo ramificado, no qual estruturas podem evoluir de forma independente, como o grande cérebro anterior observado em mamíferos mais avançados.[6] Essa conclusão desafiou a teoria predominante da época, a anagênese, e contribuiu para o entendimento moderno da cladogênese. Em 1963 e 1964, Edinger foi eleita presidente da Society of Vertebrate Paleontology, refletindo seu prestígio na área. As chamadas “Tilly bones”, ossos espessados presentes na coluna vertebral de algumas espécies de peixes, foram nomeadas em sua homenagem.[5][7][8]
Últimos anos e morte
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Durante o período em que viveu em Cambridge, Edinger frequentemente retornava a Frankfurt para visitas, demonstrando grande apego à sua cidade natal, que lhe concedeu um título honorário. Ela se aposentou aos 67 anos, após trabalhar por 25 anos no Museu de Zoologia Comparada. Mesmo aposentada, continuou atuando como consultora da instituição e seguiu escrevendo.[9]
Em 27 de maio de 1967, Tilly Edinger foi atropelada por um carro em frente ao Museu de Harvard; talvez ela não tenha ouvido o veículo se aproximar, vindo a falecer no dia seguinte aos 69 anos.[10]
No prefácio de um de seus livros, o proeminente paleontólogo Stephen Jay Gould escreveu:
| “ | (...) uma lição para todos nós sobre uma das cientistas naturais mais notáveis do século XX.[11] | ” |
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 Juliane Orth. «Wie die Frankfurter Jüdin Tilly Edinger eine neue Wissenschaft etablierte». Hessenschau. Consultado em 5 de maio de 2026
- 1 2 Buchholtz & Seyfarth 1999
- 1 2 Suer 1999, pp. 144–145.
- 1 2 3 Harriet Freidenreich. «Tilly Edinger». Jewish Women Archive. Consultado em 5 de maio de 2026
- 1 2 3 4 Yount 1999, pp. 55-56.
- ↑ Edinger, Tilly (1948). «Evolution of the Horse Brain». 25 : Evolution of the Horse Brain. Col: GSA Memoirs. 25. [S.l.]: Geological Society of America. pp. 1–178. ISBN 9780813710259. doi:10.1130/MEM25-p1
- ↑ Suer 1999, pp. 144-145.
- ↑ Oakes 2002, p. 98.
- ↑ Anna Ayvazyan. «Legends of Rock: Tilly Edinger». The Palaeontological Association. Consultado em 5 de maio de 2026
- ↑ Shapiro, Bonnie (2000). «Edinger, Tilly (1897-1967), paleoecologist». American National Biography. doi:10.1093/anb/9780198606697.article.1301957
- ↑ Rolf Kohring, Gerald Kreft. «The Madame Curie of Paleoneurology: Tilly Edinger's Life and Work». H-Net Reviews. Consultado em 9 de dezembro de 2014
Bibliografia
[editar | editar código]- Buchholtz, Emily A.; Seyfarth, Ernst-August (1999). «The gospel of the fossil brain: Tilly Edinger and the science of paleoneurology» (PDF). Brain Research Bulletin. 48 (4): 351–361. ISSN 0361-9230. PMID 10357066. doi:10.1016/s0361-9230(98)00174-9
- Buchholtz, Emily A.; Seyfarth, Ernst-August (2001), «The Study of "Fossil Brains": Tilly Edinger (1897–1967) and the Beginnings of Paleoneurology» (PDF), BioScience, 51 (8): 674–682, doi:10.1641/0006-3568(2001)051[0674:tsofbt]2.0.co;2

- Oakes, Elizabeth H. (2002), International Encyclopedia of Women Scientists, ISBN 978-0-8160-4381-1, Facts On File, Inc.
- Ogilvie, Marilyn; Harvey, Joy (2000), «Johanna Gabrielle Ottelie Edinger (Tilly)», ISBN 978-0-415-92038-4, The Biographical Dictionary of Women in Science
- Suer, Sharon F. (1999), Proffitt, Pamela, ed., «Tilly Edinger», ISBN 978-0-7876-3900-6, Gale Group Inc., Notable Women Scientists
- Yount, Lisa (1999), A Biographical Dictionary A to Z of Women in Science and Math, ISBN 978-0-8160-3797-1, Facts on File Inc.
