Ir para o conteúdo

Sármatas

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Um cartógrafo de Londres de 1770 não-identificado fez este mapa, mostrando as duas Sarmácias: europeia e asiática

Os Sármatas (em grego clássico: Σαρμάται ou em latim: sarmatae) ou sauromatas (em latim: sauromatae) foram uma grande confederação de povos nômades iranianos especializados na cavalaria, que dominaram a estepe pôntica aproximadamente do século V a.C. ao século IV d.C.[1]

A referência mais antiga conhecida aos sármatas aparece no Avesta, onde são mencionados como Sairima-, termo que, em fontes iranianas posteriores, tornou-se Sarm e Salm.[2] Originários das regiões centrais da Estepe Eurasiana, os sármatas faziam parte do amplo conjunto das culturas citas. Por volta dos séculos IV e III a.C., começaram a migrar para o oeste e, por volta de 200 a.C., já dominavam os citas, com os quais eram aparentados. Em sua maior extensão territorial registrada, por volta de 100 a.C., essas tribos ocupavam uma vasta área que ia do rio Vístula até a foz do Danúbio e, para o leste, até o rio Volga, alcançando as margens dos mares Negro e Cáspio e as regiões do Cáucaso ao sul.

No século I d.C., os sármatas passaram a avançar sobre as fronteiras do Império Romano em aliança com tribos germânicas. Já no século III d.C., os godos germânicos romperam o domínio sármata sobre a estepe pôntica. Com as invasões hunas no século IV, muitos sármatas uniram-se aos godos e a outros povos germânicos, como os vândalos, estabelecendo-se no Império Romano do Ocidente. Como grandes partes do território da atual Rússia, especialmente a região entre os montes Urais e o rio Dom, eram controladas pelos sármatas no século V a.C., as estepes do baixo Volga e do Don às vezes são chamadas de “Pátria Sármata”. Os sármatas que viviam no Reino do Bósforo acabaram assimilados pela civilização grega, enquanto outros foram absorvidos pelos meotas proto-circassianos, pelos alanos e pelos godos. Outros grupos sármatas também foram assimilados pelos primeiros povos eslavos.[3]

Os alanos sobreviveram no norte do Cáucaso até o início da Idade Média e, posteriormente, deram origem ao atual povo osseta. Na Idade Moderna, a nobreza polonesa (szlachta) afirmava descender dos sármatas. Estudos genômicos sugerem que os sármatas podem ter sido geneticamente semelhantes aos povos da cultura Yamnaya oriental da Idade do Bronze.


História

[editar | editar código]
Catafractários sármatas na Coluna de Trajano, século II d.C.[4]

Heródoto (4.110-117) relata um conto da origem dos Sauromatae, como os descendentes de um bando de jovens citas e de um grupo de amazonas, desta forma explicando o que poderia ter sido a sua língua iraniana norte-oriental - uma forma impura do cita - e a forma pouco comum de liberdade das mulheres Sauromatae, inclusive participando das guerras - uma herança de suas ancestrais amazonas. Escritores posteriores chamavam a alguns deles de "Sarmatae governados por mulheres" (γυναικοκρατούμενοι). Hipócrates (De Aere, etc., 24) os classificou como citas.

Tácito menosprezou os sármatas (Germânia, cap. 46), colocando-os como habitantes das florestas, não das estepes, tendo um "aspecto degradado"; sua visão dos sármatas como "vivendo montados e em vagões" soa mais apropriada.

Depois, Pausânias, vendo oferendas comemorativas próximo à Acrópole de Atenas no século II (Descrição da Grécia 1.21.5-6) encontrou entre elas

"um peitoral sármata. Vendo isto um homem dirá que não menos que os gregos estes estrangeiros são hábeis nas artes: para os saurómatas (Sauromatae) que não têm ferro, nem o extraíram nem o importaram ainda. Eles não se comportam , na realidade, como os outros estrangeiros à sua volta. Para suprir essa deficiência eles têm planejado invenções. No lugar de ferro, eles usam ossos nas suas lanças cortantes, e madeira de cornel [um tipo de arbusto europeu] para seus arcos e flechas, com pontas de osso nas flechas. Eles lançavam um laço em volta de qualquer inimigo que eles encontrassem, e então giravam seus cavalos derrubando o inimigo capturado com o laço."
"Seus peitorais eles faziam da seguinte forma: cada homem possui muitas éguas, e a terra não é dividida em lotes privados, nem possui qualquer coisa exceto árvores selvagens, sendo as pessoas. Essas éguas eles não usam apenas para a guerra, mas também em sacrifícios para os deuses locais e como fonte de comida. Seus cascos eles recolhem, limpam, e deles fazem chocalhos como o de cobras. Quem nunca viu uma cobra com chocalho ao menos deve ter visto uma pinha ainda verde. Quem os vir não se equivocará se comparar o produto dos cascos com os segmentos que são vistos numa pinha. Essas peças eles furam e costuram juntos com tendões de cavalos e bois, e então os usam como peitorais que são tão belos e fortes como os dos gregos. Para que eles possam se proteger dos objetos arremessados e das pancadas no combate corpo a corpo."

A grande maioria dos nomes bárbaros que ocorrem nas inscrições de Ólbia, Tánais e Panticapeu são supostamente sármatas, sendo conhecidos das línguas iranianas agora faladas pelos ossetos do Cáucaso (o osseto), que são supostamente os modernos representantes dos sármatas e podem ser mostrados como sendo diretamente ligados aos alanos, uma das tribos sármatas.

No século III a.C. parecem ter suplantado os citas nas planícies onde hoje é o sul da Ucrânia, onde se mantiveram dominantes até as invasões hunas e góticas. Suas principais divisões eram os roxolanos; os jáziges, com quem os romanos tinham negócios no Danúbio e e no Tisza; os taifalos e os alanos.

Heródoto descreve a aparência física dos sármatas como louros, vigorosos e bronzeados.

Os sármatas ainda eram uma força com a qual os romanos tinham que lidar no século IV. Amiano Marcelino (29.6.13-14) descreve várias derrotas que os invasores sármatas infligiram às forças romanas na província de Valéria, na Panônia, no final de 374, quando eles quase aniquilaram uma legião convocada da Mésia e uma da Panônia, que haviam sido enviadas para interceptar um bando sármata que havia perseguido um graduado oficial romano chamado Equício dentro do território romano.

O termo Sarmácia é aplicado pelos antigos escritores ao que é conhecido como Europa central e oriental, inclusive tudo o que as antigas autoridades chamavam de Cítia, sendo esse nome transferido para regiões mais a leste. A Geografia de Ptolomeu mostra mapas da Sarmácia europeia e asiática.

Pesquisas recentes

[editar | editar código]

Em uma recente escavação de sítios sármatas por Jeannine Davis-Kimball, foi encontrada uma tumba onde terão sido enterradas guerreiras, proporcionando dessa forma algum crédito ao mito grego das amazonas. Após as escavações de 2003, ela e Joachim Burger compararam as evidências genéticas do sítio com os nômades cazaques e encontraram uma impressionante ligação genética - verificada depois pela Universidade de Cambridge - levando a crer que a tese de que os povos turcos que se expandiram para essa região não exterminaram nem expulsaram completamente os habitantes iranianos originais, mas na verdade assimilaram um número significante deles.

Reis conhecidos

[editar | editar código]

Ver também

[editar | editar código]

Referências

[editar código]
  1. Dario Radley. «Ancient Sarmatian jewelry and artifacts unearthed in Kazakhstan». Archaeology News. Consultado em 11 de maio de 2026. Os sármatas, um antigo grupo nômade equestre iraniano que dominou as estepes da Eurásia do século V a.C. ao século IV d.C., eram conhecidos por sua cultura guerreira e seu elaborado trabalho em metal.
  2. Abaev, V. I.; Bailey, H. W. (26 agosto 2020). «ALANS». Encyclopaedia Iranica Online. Consultado em 11 de maio de 2026
  3. «Sarmatian». Encyclopedia Britannica. Consultado em 11 de maio de 2026. No século V a.C., os sármatas controlavam as terras entre os Montes Urais e o rio Don.
  4. Bennett, Matthew; Dawson, Doyne; Field, Ron; Hawthornwaite, Philip; Loades, Mike (15 de setembro de 2016). The History of Warfare: The Ultimate Visual Guide to the History of Warfare from the Ancient World to the American Civil War (em inglês). [S.l.]: Book Sales. p. 31. ISBN 978-0-7858-3461-8

Bibliografia

[editar | editar código]
O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Sármatas
  • Brzezinski, R., et al, The Sarmatians 600 BC-AD 450 (in series Men-At-Arms 373) ISBN 1-84176-485-X
  • Davis-Kimball, Jeannine. 2002. Warrior Women: An Archaeologist's Search for History's Hidden Heroines. Warner Books, New York. 1st Trade printing, 2003. ISBN 0-446-67983-6 (pbk).
  • Tadeusz Sulimirski, The Sarmatians (vol. 73 in series "Ancient People and Places") Praeger Publishers, 1970

Ligações externas

[editar | editar código]