Manoel Monteiro Lopes
Manoel da Motta Monteiro Lopes | |
|---|---|
| Deputado federal pela Capital Federal | |
| Período | 24 de julho de 1909 até 13 de dezembro de 1910 |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 25 de dezembro de 1867 Recife, Província de Pernambuco |
| Morte | 13 de dezembro de 1910 (42 anos) Rio de Janeiro, Distrito Federal |
| Nacionalidade | brasileiro |
| Progenitores | Mãe: Maria Egiphicíaca de Paula Lopes Pai: Jeronymo da Motta Monteiro Lopes |
| Alma mater | Faculdade de Direito do Recife |
| Cônjuge | Anna Zulmira Monteiro Lopes |
| Filhos(as) | Aristides Lopes |
| Partido | Partido Republicano Nacional (1903-1904) Partido Republicano Democrata (1909-1910) |
| Profissão | promotor |
Manoel da Motta Monteiro Lopes, ou simplesmente Monteiro Lopes (Recife, 25 de dezembro de 1867 — Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1910), foi um advogado, político, e promotor brasileiro.[1][2][3]
Ele se tornou notório por ser um dos primeiros deputados federais negros do Brasil e autor dos primeiros projetos de lei que reconhecimento de direitos aos trabalhadores brasileiros, com destaque para o que estabelecia o 1º de maio como feriado e o que limitava a jornada de trabalho a 8 (oito) horas diárias.[2][4]
Biografia
[editar | editar código]Filho do casal negro e livre (ou liberto) formada pelo operário Jeronymo da Motta Monteiro Lopes e por Maria Francisca Egiphicíaca de Paula Lopes, Manoel nasceu livre em dezembro de 1867, em pleno Brasil Império, onde a escravidão ainda estava em vigor.[2][3]
Ele tinha mais três irmãos, dois que também se formaram pela Faculdade de Direito do Recife (João Clodoaldo e José Elias) e duas irmãs (Taciana e Maria Júlia) que se tornaram professoras e que se casaram com homens de formação superior. De acordo com o historiador Juarez Silva Junior, a análise das trajetórias dessa família apontariam para uma aparente estratégia familiar voltada para a obtenção da mobilidade social por meio da educação.[2]
Iniciou seus estudos em sua cidade natal onde estudou no Ginásio Pernambucano e se tornou bacharel em humanidades. Em seguida, ele ingressou na Faculdade de Direito do Recife, em Pernambuco, onde se bacharelou em Ciências Jurídicas e Sociais em 29 de novembro de 1889.[2][3]
Após a formatura na Faculdade de Direito do Recife, teve dificuldades de estabelecimento profissional e político em sua cidade natal, mudou-se para o estado do Pará (Belém), onde o irmão José Elias já havia se estabelecido e logo em seguida para Manaus no Amazonas, onde inicialmente exerceu a advocacia, até que em 1892, foi nomeado promotor público, o próprio Monteiro Lopes elucida em entrevista de 1910, que viveu em Manaus e exerceu apenas a advocacia e o cargo de Promotor Público, descartadas as suposições levantadas a partir de matéria jornalística no Jornal do Brasil quando de seu falecimento em 1910, de que teria tentado o cargo de chefe de polícia ou exercido a magistratura no Amazonas .[1][2][3]
Em 1893, Manoel se mudou para o Rio de Janeiro, onde volta a exercer a advocacia. Lá ele iria desenvolver sua vida política.[4]
Carreira política
[editar | editar código]Após chegar na Capital Federal, ele ingressou na Irmandade do Rosário dos Homens Pretos - ordem religiosa que permitiu a Manoel se aproximar de José do Patrocínio. No mesmo período, ele também se afiliou à maçonaria e iniciou sua militância de natureza político-partidária.[4]
Em 1896, ele pertencia aos quadros do breve Partido Republicano Nacional, agremiação política que se dissolveu por causa das lutas internas existentes entre a ala "moderada", sob a liderança de Quintino Bocaiúva, e a ala "radical", chefiada por Silva Jardim.[4]
Em 1903, elegeu-se intendente para o Conselho da Intendência Municipal da Capital Federal, órgão legislativo composto por 12 intendentes da cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal, e que recebeu esse nome após à Proclamação da República, mas que recuperou o nome de Câmara Municipal durante a década de 1930.[2][3][4]
Em 1904 e 1905, Monteiro Lopes obteve votos suficientes para ser reeleito intendente do Conselho de Intendência Municipal do Rio de Janeiro e para ser deputado federal pela Capital Federal. Contudo, nas duas eleições ele foi impedido de assumir pelas instituições políticas eleitorais vigentes durante a República Velha.[5]
Em 1909, candidatando-se à deputado federal pelo Partido Republicano Democrata, Manoel Monteiro Lopes enfrentou uma campanha eleitoral marcada por fortes ataques racistas, inclusive da imprensa da época (a exemplo dos periódicos Careta, Fon Fon e O Malho),[5] além de sofrer ameaças de que caso recebe votos suficientes, ele poderia não ter seus votos confirmados pelas instituições eleitorais do período, a exemplo da Comissão Verificadora.[2][3][4]
Inclusive, em uma entrevista dada pelo próprio Monteiro Lopes ao jornal O Commercio de Campinas, ele chegou a identificar o Barão do Rio Branco como um dos “primeiros perseguidores” de sua diplomação. Articulando-se com o Centro Internacional Operário, esta entidade logo denunciou a pressão do “Centro Industrial”, entidade formada por fazendeiros que no passado haviam sido negociantes de pessoas escravizadas e cujo porta-voz era Alcindo Guanabara.[5]
Mobilizando aliados da classe política e movimentos sociais de diversos estados do Brasil (a exemplo do próprio Centro Internacional Operário), Manoel conseguiu influir na opinião pública, mobilizando grupos em defesa do respeito à sua eventual eleição. Assim, ele conseguiu se eleger para a Câmara dos Deputados do Brasil, representando a Capital Federal.[2][4][5]
Durante o seu rápido e intenso mandato parlamentar, ele atuou de maneira destacada na questão social, apresentando leis em defesa dos direitos dos trabalhadores e discutindo os problemas raciais do país. Entre os pioneiros projetos de leis, estão[2]:
- Projeto de Lei que tornava o dia 1º de maio, um feriado em favor dos trabalhadores;
- Projeto de Lei que limitava a jornada de trabalho a oito horas diárias.
Pouco mais de um ano depois do seu falecimento, o presidente Hermes da Fonseca editou o Decreto nº 2.567, 17 de janeiro de 1912, que concedeu uma pensão anual para Anna Zulmira Monteiro Lopes, viúva de Manoel, e também para Aristides Gomes Monteiro Lopes, seu filho órfão com 16 anos na época do Decreto.[6]
Obras
[editar | editar código]- A dama de sangue (1890), romance publicado em fascículos na imprensa do Recife.[3]
Família Monteiro Lopes
[editar | editar código]Descendente direto
[editar | editar código]O seu único filho, Aristides Gomes Monteiro Lopes (c. 1896-1918), era estudante da Escola Militar do Realengo, na época do óbito de seu pai, tendo falecido durante a epidemia de gripe espanhola que atingiu o Brasil no ano de 1918, quando era um aspirante à oficial do Exército.[7]
Ramo pernambucano
[editar | editar código]O chamado ramo "pernambucano" da família Monteiro Lopes seria formado em torno da figura do irmão mais velho de Manoel, o advogado João Clodoaldo Monteiro Lopes, que também foi político, tendo exercido, ainda durante o Brasil Império, os mandatos de vereador, em nível municipal e de deputado provincial em Pernambuco. Nesta atividade parlamentar, chegou a alcançar a presidência da Assembleia Legislativa Provincial de Pernambuco.[7]
Ramo amazônico
[editar | editar código]O chamado ramo "amazônico" da família Monteiro Lopes seria formado em torno da figura de outro irmão de Manoel, o advogado José Elias Monteiro Lopes, também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, que se radicou no estado do Pará durante a década de 1890. Será neste estado que José Elias exerceu os cargos de juiz substituto em Porto de Moz, em 1900, algum tempo depois veio a se mudar para as comarcas de Bayão, de Cametá, de Marabá (onde se tornou o primeiro juiz da localidade, sendo homenageado ao emprestar seu nome ao fórum local). Por fim, em 1922, ele se tornou juiz em Melgaço, onde veio a falecer.[7]
Entre os descendentes de José Elias estão:
- Agnano de Moura Monteiro Lopes (1910-1994): magistrado do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, onde veio a se tornar desembargador de justiça e presidente do TJ-PA.[1][7]
- Eduardo Monteiro Lopes: almirante da Marinha do Brasil. Foi Chefe do Estado-Maior da Armada e representante permanente do Brasil na Organização Marítima Internacional (IMO), com sede em Londres.[7]
- Eduardo Monteiro Lopes Filho: diplomata brasileiro, doutor em sociologia e vice-cônsul do Brasil em Londres.[7]
- José Monteiro Lopes: Desembargador do TRT-1 (Rio de Janeiro).[7]
* A familia Monteiro Lopes também tem ramos em São Paulo e na Bahia
[editar | editar código]No ramo baiano destaca-se a figura da falecida Julieta Carteado Monteiro Lopes, bibliotecária e artista reconhecida em Feira de Santana-BA.
A iguaria paraense
[editar | editar código]O nome da família também nomeia a famosa iguaria "Monteiro Lopes", um biscoito de massa bicolor, criação em homenagem à união do Desembargador Agnano Monteiro Lopes e sua esposa.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 «Monteiro Lopes: o dezembro de nascimento e morte de um amigo do Amazonas». Amazônia Real. Consultado em 26 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 18 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Juarez C. Silva Jr. (2016). «Um negro de poder no Amazonas da primeira república: Monteiro Lopes, o jurista e deputado (1892-1910)». UFAM. Consultado em 26 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 «LOPES, Monteiro» (PDF). FGV. Consultado em 26 de outubro de 2024. Cópia arquivada (PDF) em 26 de janeiro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 Petrônio Domingues (2013). «"Vai ficar tudo preto": Monteiro Lopes e a cor na política». Novos estudos CEBRAP. Scielo. Consultado em 27 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 18 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 Carolina Vianna Dantas (2010). «MONTEIRO LOPES (1867-1910), UM "LÍDER DA RAÇA NEGRA" NA CAPITAL DA REPÚBLICA». Afro-Ásia. Consultado em 27 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2025
- ↑ «DECRETO Nº 2.567, DE 17 DE JANEIRO DE 1912, Concede as pensões annuaes de 2:400$ a D. Anna Zulmira Monteiro Lopes, viuva do Dr. Manoel da Motta Monteiro Lopes, e 1:200$ e seu filho menor Aristides Gomes Monteiro Lopes». Câmara dos Deputados. Consultado em 26 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 13 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 Juarez C. da Silva Jr. (2019). «História e mobilidade social negra: A família Monteiro Lopes, 150 anos» (PDF). Anais do 30º Simpósio Nacional de História. ANPUH. Consultado em 26 de outubro de 2024. Cópia arquivada (PDF) em 17 de maio de 2023