Língua cherokee
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| Cherokee ᏣᎳᎩ ᎧᏬᏂᎯᏍᏗ | ||
|---|---|---|
| Pronúncia: | tsa-la-gi ga-wo-ni-hi-is-di | |
| Falado(a) em: | Estados Unidos | |
| Região: | Oklahoma e Reserva Cherokee nas Montanhas Great Smoky, Carolina do Norte | |
| Total de falantes: | 15 mil - 22 mil | |
| Família: | Iroquesa Meridional Cherokee Cherokee | |
| Escrita: | Alfabeto cherokee; Alfabeto latino | |
| Códigos de língua | ||
| ISO 639-1: | -- | |
| ISO 639-2: | chr | |
| ISO 639-3: | chr
| |
A língua cherokee, ou ᏣᎳᎩ ᎧᏬᏂᎯᏍᏗ (tsalagi gawonihiisdi), falada pelo povo indígena Cherokee. Apesar da grande população de descendentes, atualmente, é um idioma vulnerável, com aproximadamente 20 mil falantes, sendo sua maioria adultos e idosos. Um dos mecanismos que colaborou com a sobrevivência do idioma foi a criação do silabário cherokee, desenvolvido por Sequoyah no século XIX. Essa é a única língua iroquesa meridional ainda utilizada.
Os cherokees, originalmente, habitavam o Sudeste dos Estados Unidos e, em 1838, foram forçados a se mudar para o "Território Indígena" no oeste do país, devido aos conflitos do período colonial. Tendo povos estabelecidos nos estados de Oklahoma, Carolina do Norte, Geórgia, Alabama, Missouri, Arkansas e Tennessee. Devido ao frequente contato com os colonizadores e outras povos nativos, a língua cherokee recebeu uma influência significativa de idiomas como o inglês e as línguas delaware.
Etimologia
[editar | editar código]A língua cherokee, ou cheroqui, recebe o nome do mesmo povo que a fala, os indígenas Cherokees.
Esse nome, porém, é uma variação estrangeira, uma vez que o povo nativo se refere a si mesmo como ᏣᎳᎩ (Tsalagi). Acreditasse que houve uma transposição fonética de tsalagi para chalaque pelo explorador espanhol Hernando de Soto, que posteriormente seria adaptada para cheraqui pela língua francesa, até por fim chegar a cherokee.
Distribuição
[editar | editar código]A língua é falada pelos nativos e descendentes do povo Cherokee, uma nação indígena norte-americana de com cerca de 300 mil pessoas* e com apenas 2 mil falantes. Há grupos cherokees residentes nos estados de Oklahoma, Carolina do Norte, Geórgia, Alabama, Missouri, Arkansas e Tennessee, nos Estados Unidos.
Dialetos
[editar | editar código]Devido sua dispersão pelo país, o idioma desenvolveu dois dialetos principais, o Oriental (também chamado de Kituwa ou Qualla), que é falado na região leste do país, onde fica a Carolina do Norte, e o Ocidental (ou Overhill), que é mais recente, falado no oeste, na região de Oklahoma.
Em relação a escrita e gramática, ambos os dialetos são identicos. As principais diferenças entre eles são a pronuncia de certas sílabas, como Ꮵ (tsi), enquanto o dileto oriental tem uma pronuncia semelhante ao som de /z/, o ocidental se aproxima mais de /ch/ ou /j/. Outro exemplo é a silaba Ꮟ (si), pronunciada como /shi/ no dialeto Kituwa.
Tal fenômeno se deve pela dispersão da nação cherokee pelo território norte-americano, o que proporcionou diferentes experiências e influências e resultou em algumas divergências. Acredita-se que o dialeto Oriental recebeu maior influência linguística dos euroupeus, principalmente na região sul do pais, com franceses e espanhóis, o que levou a este grupo desenvolver o som de /r/, antes não presente na língua. Já o dialeto Ocidental recebeu maior influência de outras línguas nativas, em consequência da migração para o "Território Indígena".
História
[editar | editar código]Antecedentes
[editar | editar código]Originalmente, o povo cherokee habitava no sudeste do país (aproximadamente onde se localiza a Carolina do Norte). Porém, devido a adesão a política de "Remoção Indígena" no século XIX e a descoberta de ouro em seu território, em 1829, as relações dos nativos com o governo inglês se tornaram conturbadas, levando a disputas legais e de interesse. O conflito teve fim com o Tratado de New Echota, não reconhecido por grande parte dos cherokees e que implicou na remoção forçada dos desse povo para o "Território Indígena" no oeste (atual estado de Oklahoma) e a criação de acampamentos militares em estados próximos ao território nativo (como Tennessee, Carolina do Norte e Alabama) para comportar os indígenas até sua realocação.
Algumas comunidades cherokees são amplamente conhecidas, como a Nação Cherokee (Cherokee Nation) e o Grupo Unido Keetoowah dos Índios Cherokee (United Keetoowah Band of Cherokee Indians), em Oklahoma, e Grupo Oriental dos Índios Cherokee (Eastern Band of Cherokee Indians), na Carolina do Norte. Algumas outras possuem apenas reconhecimento estatal e muitas outras ainda são negligenciadas.
História da Escrita
[editar | editar código]O sistema de escrita dos cherokees é um silabário composto por oitenta e seis caracteres, desenvolvido pelo cherokee Sequoyah no século XIX. Inspirado pelos colonos que utilizavam da escrita como meio de comunicação, Sequoyah, sem nunca ter frequentado a escola e sem saber ler, escrever ou falar inglês, dedicou doze anos de sua vida para criar uma ferramenta semelhante para seu povo. Ele estudou a fonética de seu idioma, pegou elementos dos alfabetos latino e grego e os redesenhou á sua própria maneira, para então atribuir a eles os sons de sílabas.
No princípio a ideia não foi bem recebida por algumas pessoas, em especial por curandeiros supersticiosos que acusavam Sequoyah de bruxaria. Apesar das adversidades, logo o povo cherokee reconheceu a invenção e a importância dela. Em poucos meses, milhares de cherokees já haviam aprendido a ler e escrever em seu idioma.
Graças a Sequoyah, agora as pessoas poderiam se comunicar com parentes, fazer registros acerca de sua vida, negócios, instituições e cultura cherokee. O silabário também tornou viável a construção de uma constituição cherokee e planos para o desenvolvimento de literatura, biblioteca, museu, imprensa e academia nacionais.
Foi também criado um jornal nacionalista, Cherokee Phoenix, que, usando o silabário, atuou em defesa dos direitos cherokees, do progresso da nação e condenava as políticas governamentais e negava rumores acerca de sua migração, que seria forçada pelo estado, e não por vontade própria, como circulava em alguns locais.
História do Ensino
[editar | editar código]Anteriormente, assim como diversas línguas, o cherokee era utilizado apenas dentro dessa população e ensinado de forma oral, pela convivência.
Quando Sequoyah, inventa um silabario próprio para o idioma, ele proporciona o ensinamento e estudo aprofundado da própria língua. Seus primeiros alunos foram sua filha e seu cunhado , e conforme Sequoya ensinava as pessoas, mais a ideia ganhava visibilidade. Até ser oficialmente proclamada como o silabario nacional da língua cherokee, em ... .
A adesão à escrita fez com que milhares de cherokees pudessem se alfabetizar na língua nativa em poucos meses, mesmo sem terem fundado escolas ou professores num primeiro momento. Apenas em 15 de outubro de 1825, Comitê e Conselho Nacional Cherokee, aceita uma resolução que projetava uma academia nacional feminina como um desenvolvimento futuro.
Fonologia
[editar | editar código]Consoantes
[editar | editar código]Os sons que representam as consoantes na língua cherokee são:
| Bilabial | Pós-alveolar | Palatal | Velar | Glotal | |
|---|---|---|---|---|---|
| Plosiva | /t/ | /k/ | /ɂ/ | ||
| Nasal | /m/ | /n/ | |||
| Fricativa | /s/ | ||||
| Aproximante | /y/ | /w/ | |||
| Aproximante lateral | /l/ |
As consoantes do cherokee apresentam características particulares que influenciam diretamente a pronúncia e a estrutura sonora da língua. O fonema /h/ é um segmento mudo, cuja realização depende das vogais ou ressonantes vizinhas; ele não possui um timbre próprio, funcionando como uma leve aspiração moldada pelo contexto fonético. Já /ʔ/ varia entre um fechamento glotal completo após vogais, em alguns dialetos, e uma glotalização acompanhada de queda tonal em outros; após consoantes, porém, sempre aparece como golpe glotal pleno. Além disso, quando uma palavra começa por vogal, um /ʔ/ automático é inserido foneticamente, embora não seja escrito, por ser totalmente previsível.
O único som realmente labial da língua é /m/, extremamente raro e praticamente restrito à palavra ama “água”. Não há /p/ nem /b/ no sistema fonológico. Algumas consoantes apresentam variações alofônicas: sílabas grafadas com /g/, exceto /ga/, são pronunciadas de forma mais próxima a /k/, por terem articulação mais forte; o /d/ pode soar como o /t/ do inglês, especialmente antes de /o, u, v, ou/ quando ocorre antes de /l/ e /s/. Sequências iniciadas por /ts/ costumam ser realizadas como /ch/, às vezes aproximando‑se de /j/. Sílabas com /tl/ podem alternar para /dl/, e formas como /do, du, dv/ podem se aproximar de /to, tu, tv/, frequentemente com nasalização perceptível em /v/, usada inclusive para ênfase em certos dialetos.
Por fim, algumas palavras exibem um /h/ intrusivo, nunca escrito, mas ouvido como uma respiração suave antes ou depois da sílaba, uma característica variável e condicionada pelo fluxo fonético natural da fala .
Vogais
[editar | editar código]As vogais do cherokee consistem em cinco vogais orais — /a/, /e/, /i/, /o/, /u/ — e uma vogal nasalizada, /v/. As vogais posteriores /o/ e /u/ distinguem‑se principalmente pela posterioridade, mas também apresentam um leve arredondamento labial, característica que as aproxima de diversas realizações do semivogal /w/. Entre muitos falantes, especialmente na Carolina do Norte, o fonema /o/ é articulado de forma relativamente baixa, aproximando‑se do timbre de /ↄ/.
| Anterior | Central | Posterior | |
|---|---|---|---|
| Baixa | /a/ | ||
| Média | /e/ | /v/ | /o/ |
| Alta | /i/ | /u/ |
Prosódias
[editar | editar código]A prosódia do cherokee é marcada por dois sinais principais: o acento /´/ e o comprimento vocálico /:/. O acento indica altura alta, ou seja, uma elevação perceptível na entoação da sílaba onde aparece. Já o símbolo /:/ marca uma duração mais longa da vogal precedente, funcionando como um prolongamento audível do som vocálico.
Além disso, o cherokee possui três graus fonéticos de duração vocálica: vogais longas, vogais curtas e um terceiro tipo — vogais extra‑curtas, encontradas especialmente em certos /a/ e /i/. Essas vogais extra‑curtas correspondem a vogais epentéticas, inseridas por processos morfofonológicos. Elas são sempre previsíveis pelo contexto, e por isso não são representadas na escrita, já que não há contraste significativo entre vogais curtas e extra‑curtas (não são vistas diferenças suficintes entre /a/ e /ă/ ou entre /i/ e /ĭ/ para diferenciá-las).
Fonotática
[editar | editar código]A fonotática do cherokee é marcada por simplicidade estrutural e forte dependência de processos morfofonêmicos. A língua prefere sílabas do tipo CV, com V inicial também comum, enquanto combinações CC são praticamente inexistentes sem intervenção de regras formais. Quando dois morfemas entram em contato criando um encontro consonantal, a língua resolve automaticamente essa sequência por epêntese de /i/, garantindo que se mantenha a estrutura silábica básica permitida. De maneira semelhante, hiatos entre vogais não são permitidos e o sistema introduz /w/ após o prefixo u:- e /y/ após prefixos com i: para impedir sequências vocálicas proibidas, mantendo a fluidez fonotática sem quebrar padrões silábicos.
A presença de laringeais (/h/ e /ʔ/) é o fator fonotático mais importante. A regra central do cherokee diz que, quando uma laringeal ocorre em sílaba não final e é precedida por vogal curta não acentuada ou por ressonante (com ou sem vogal curta), ela se desloca para a esquerda (uma metátese obrigatória que muitas vezes causa deleção vocálica se o som seguinte não for ressonante). Isso reorganiza a palavra internamente e explica grande parte da variação superficial do idioma, especialmente na junção entre prefixos e raízes verbais.pdf). Além disso, o sistema permite que /n/ se vocalize em /v/ diante de sequências laringal + consoante, um padrão previsível que também faz parte do funcionamento fonotático das bases verbais composta.
As vogais curtas átonas são altamente instáveis e podem ser reduzidas, deslocadas ou até eliminadas por processos de metátese e contração. Vogais longas, por outro lado, tendem a gerar glotalização ou inserção de /ʔ/ em ambientes átonos, marcando fronteiras morfológicas e reforçando padrões prosódicos regulares. Existe fonotaticamente uma oclusiva glotal automática em contexto inicial, não grafada, mas previsível a partir do sistema fonológico, preservando ataques silábicos bem formados.
Gramática
[editar | editar código]Morfologia
[editar | editar código]Altamente interligada à fonologia da língua, sua organização combina processos morfofonêmicos regulares, padrões condicionados por classes de raízes, um sistema pronominal extenso e uma estrutura verbal capaz de incorporar múltiplos morfemas derivacionais, reflexivos, classificatórios e nominais.
Um dos processos centrais do cherokee é a chamada metátese laríngea, que afeta laringais como /h/ e /ʔ/ em certos contextos. Sempre que uma laringal ocorre em sílaba não final e é precedida por uma vogal curta não acentuada, por um ressonante, ou por um ressonante seguido de vogal curta, e desde que esse material não seja precedido por outra laringal, a laringal desloca-se para a esquerda, atravessando a vogal ou a sequência RV. Quando o morfema seguinte começa por consoante não ressonante, a vogal atravessada é deletada. Esse processo é responsável por grande parte da variação superficial nas formas verbais, principalmente nos prefixos pronominais e nos verbos da classe C (raiz que começa com consoante).
A influência dessa metátese é visível em prefixos como ka- ('ele'), que adquire a forma kha- quando seguido de raízes iniciadas por /h/, e em prefixos como a:ki- ('eu'), que aparecem como a:khi- diante de /h/. Em alguns casos, a vogal do prefixo é apagada devido à segunda parte da regra, como em formas onde a sequência /h/ inicial do radical é seguida por consoante não ressonante. Além disso, certos prefixos pré‑pronominais, como o condicional yi-, ao se combinarem com radicais iniciados por vogal e com morfemas contendo /h/, também sofrem metátese e deleção de vogais. Esse mesmo fenômeno atua em raízes com /ah/ ou /vh/ inicial, causando deslocamento do /h/ para dentro do prefixo e, em muitos casos, apagamento da vogal do radical.
Outro aspecto central do sistema morfológico do cherokee é o sistema de prefixos pronominais, que ocorre obrigatoriamente em cada verbo e em muitos substantivos, como termos de parentesco e nomes de partes do corpo. Esses prefixos distinguem relações gramaticais (sujeito, objeto, transitivo), pessoa (1ª, 2ª, 3ª), número (singular, dual, plural) e gênero (animado, indefinido). A terceira pessoa, em particular, apresenta um sistema dual de prefixos, divididos entre formas que colocam o foco no sujeito e outras que colocam o foco no objeto, resultando em contrastes que lembram as diferenças entre vozes ativa e passiva em línguas como o inglês.
A escolha do alomorfo adequado de cada prefixo depende principalmente do tipo fonológico do radical ao qual se anexa. As raízes se dividem em classes como C1 e C2, que escolhem respectivamente os alomorfos a:- e ka- do prefixo ‘ele’, enquanto raízes vocálicas selecionam k-. As chamadas :‑stems, que começam com vogal longa, comportam-se como radicais C2 para a maioria dos prefixos, mas causam alongamento vocálico e acionam alomorfos especiais em alguns casos. Outras classes incluem raízes a‑stems, iniciadas por /a/, e v‑stems, iniciadas por /v:/, cada qual com padrões específicos de deleção de vogal ou alteração sob o prefixo u:- (objeto de terceira pessoa).
Esse prefixo u:- é especialmente interessante porque apresenta três fenômenos:
(1) deleta a vogal do radical quando este começa por /a/;
(2) insere um /w/ epentético diante de radicais vocálicos;
(3) transforma /v:/ em /a:/ antes da epêntese.
Esses processos dão origem à complexa variação observada nas formas envolvendo radicais em /v/, como nos verbos de lavar.
O sistema também apresenta alternâncias envolvendo o morfema /i:/ dos prefixos plurais, que pode se comportar de dois modos: em muitos prefixos, perde-se antes de vogais; em outros, insere /y/ epentético. Historicamente, essas duas variantes refletem duas origens proto‑iroquesas distintas: *-i- e *‑he-. Sincronicamente, entretanto, são tratadas como processos condicionados pelo item lexical envolvido.
Quanto aos sufixos derivacionais, o cherokee possui uma série deles, cada qual responsável por ampliar a valência verbal, indicar modo de movimento, orientar o propósito da ação ou alterar o aspecto e o domínio espacial. Entre eles, destacam-se:
– ‑ki: (reversivo),
– ‑ihst‑ (causativo‑instrumental),
– ‑e:- / ‑hsi (dativo),
– ‑e:k‑ (aproximativo),
– ‑hi (purpose),
– ‑hi’s‑ (reiterativo),
– ‑i:to:- (ambulativo),
– ‑ilo:- (repetitivo),
– ‑ohn (completivo).
Cada um desses sufixos segue padrões próprios de conjugação e, quando combinados, obedecem uma ordem fixa de aplicação. Vale destacar destes: te:-, o prefixo distributivo, e ka-/ke-, que marca plural animado. O primeiro é um prefixo pré‑pronominal e não faz parte do sistema pronominal principal, mas interage com ele para indicar pluralidade distribuída, repetição ou multiplicidade espacial/temporal. O segundo é formado pelos morfemas k- ‘plural’ e a-/e- ‘animado’, e aparece em vários prefixos transitivos que envolvem participantes animados de terceira pessoa.
Pronomes
[editar | editar código]Os “pronomes” do cherokee não são palavras independentes, e sim prefixos obrigatórios que aparecem em todo verbo e codificam simultaneamente pessoa, número, animacidade, papel gramatical e foco discursivo. Todo verbo carrega um desses prefixos, mesmo quando em português não haveria pronome explícito. Ademais, muitos substantivos — especialmente partes do corpo e termos de parentesco — também exigem prefixos pronominais para marcar posse.
O sistema distingue sujeito, objeto e formas transitivas que incluem duas pessoas ao mesmo tempo. Para cada pessoa (1ª exclusiva/inclusiva, 2ª e 3ª) e número (singular, dual, plural), há uma forma prefixal. Na terceira pessoa há ainda a distinção entre animado e indefinido, categoria herdada das línguas iroquesas.
A forma exata do prefixo depende fortemente do fonema inicial da raiz verbal. Por isso, Cook descreve várias classes de raízes (principalmente C, C1, C2, V, :‑stems, a‑stems, v‑stems, h‑stems e ah‑stems) que determinam qual alomorfe cada prefixo assume. Por exemplo, na terceira pessoa do singular sujeito, raízes C1 exigem a:-, enquanto raízes C2 exigem ka-; raízes vocálicas tomam k-, alomorfe pré‑vocálico de ka-. Essas escolhas ainda podem ser alteradas por processos fonológicos, principalmente a metátese laringal (Regra 1), que desloca /h/ ou /ʔ/ para a esquerda e pode apagar vogais, mudando a forma dos prefixos.
Um dos aspectos mais notáveis do sistema é o comportamento das formas da 3ª pessoa. O cherokee possui dois conjuntos paralelos de prefixos: um usado quando o sujeito está em foco no discurso e outro quando o objeto está em foco. Assim, a:kohwthiha significa “ele vê”, enquanto u:kohwthiha significa “ele é visto”. Isso cria um contraste funcional semelhante ao de voz ativa/passiva, ainda que expresso exclusivamente na morfologia pronominal.
Prefixos pronominais também interagem com os prefixos pré‑pronominais, como y- (contrafactual), ts- (positivo), w- (translocativo), te:-/ti-/to:- (distributivo), ti-/ta- (cislocativo), hi-/hv- (iterativo) e ka-/ke:- (negativo). Esses elementos podem exigir epêntese de vogais (/i/, /y/, /w/), provocar metátese de /h/, ou reorganizar o contorno prosódico, afetando diretamente a forma final do pronome. O distributivo te:-, por exemplo, frequentemente marca pluralidade do objeto quando o sistema pronominal não o faz (como ocorre quando o objeto não está em foco).
Os prefixos pronominais determinam também valência verbal e estrutura argumental, especialmente quando combinados com sufixos derivacionais como o dativo, o causativo‑instrumental e o reversivo.O comportamento de verbos estativos, experienciadores e classificatórios mostra que a escolha entre prefixos subjetivos e objetivos pode ter motivação semântica ou lexical.
Substantivos
[editar | editar código]Os substantivos do cherokee apresentam um sistema morfológico estreitamente integrado ao sistema verbal. Em termos amplos, distinguem-se quatro tipos básicos: não flexionados, flexionados em número, flexionados em posse e número, e deverbais. Um traço característico é que as marcações de pessoa e número nos substantivos, quando presentes, recorrem aos mesmos prefixos pronominais usados pelos verbos. A pluralidade frequentemente é marcada no verbo da oração, enquanto muitos substantivos ou não flexionam ou exibem morfologia concordante por meio de prefixos pronominais e do prefixo distributivo (alomorfo ti-/ts-), cuja função pode variar conforme a classe nominal.
Substantivos não flexionados
[editar | editar código]Esta classe abrange nomes de objetos concretos, animais, plantas e acidentes geográficos e não recebem marca morfológica de número. A distinção singular/plural, quando relevante, é normalmente codificada no verbo da sentença por meio da morfologia pronominal e de número verbal.
Substantivos flexionados em número
[editar | editar código]Incluem nomes que identificam pessoas e flexionam através dos prefixos pronominais usados nos verbos. Em particular, usam-se os prefixos do sujeito/objeto de terceira pessoa do plural para expressar pluralidade no nome, ou seja, o substantivo exibe prefixação pronominal para marcar o número, paralelamente ao sistema verbal.
Substantivos flexionados em posse e número
[editar | editar código]Nesta classe, distinguem-se dois subgrupos com gramática aplicada distinta:
Partes do corpo: Seus substantivos devem aparecer com prefixos subjetivos ou objetivos que identificam seu possuidor e, para indicar pluralidade, recorre-se ao prefixo distributivo (alomorfo ti-/ts-) em posição pré-nominal. A seleção de alomorfes pré-verbais/pré-nominais também depende da **morfologia de sufixo** do termo. Os termos com sufixo de particípio `-tf`: recebem a alternante pré-verbal te:-/t-. Já os terminados em `-ni` ou `-li` com sufixo nominal `-i`: recebem a alternante pré-nominal ti-/ts-.
Termos de parentesco: Estes usam prefixos transitivos, que colocam o ego como sujeito e o parente como objeto. A pluralidade dos termos de parentesco é geralmente indicada pelo alomorfo pré-nominal ti-/ts- do prefixo distributivo, sendo ele uma marcador regular na maioria dos casos, com exceção no termo para “irmão (de um homem)”, onde ocorre dual/plural intransitivo (subjetivo) pré-nominal + reflexivo + o alomorfo ti-/ts- do distributivo.
Há variação geracional na complexidade do sistema, visto que alguns falantes mais velhos mantêm formas de tratamento especializadas.
| Cherokee | Inglês | Português |
|---|---|---|
| tsohstahlinv:tshi | my brother | meu irmão |
| tso:tsahlinv:tshi | my brothers | meus irmãos |
| tsu:lv:ɂi | her sisters | as irmãs dela |
| u:lv:ɂi | her sister | a irmã dela |
Substantivos deverbais
[editar | editar código]Os deverbais subdividem-se em agentes e instrumentais, ambos formados a partir de bases verbais com adição do sufixo nominal -i.
Agentes: Formados ao adicionar -i à forma tônica do radical imperfeito. Eles também selecionam o alomorfo pré-nominal ti-/ts- do prefixo distributivo e sua pluralidade é indicada pelos prefixos pronominais, sendo a aparição do ti-/ts- por motivos morfofonológicos/distributivos.
| Cherokee | Inglês | Português |
|---|---|---|
| te:khano:ki:skoɂi | he singns | ele canta |
| tikhano:kí:ski | singer | cantor |
| ta:nohwe:liɂskoɂi | they write | eles escrevem |
| ti:nohwe:lí:ski | scribes | escribas |
Instrumentais: Formados sobre a base do infinitivo tônico, que corresponde à base verbal causativo-instrumental, seguida do sufixo -i. Esses nomes recebem prefixo subjetivo de 3ª pessoa do singular e o alomorfo pré-nominal ti-/ts- do prefixo distributivo. Nesse caso, o prefixo distributivo não indica pluralidade do instrumento, e sim do objeto afetado pela ação.
| Cherokee | Inglês | Portugês |
|---|---|---|
| a:hstó:sti | pounder | batedor / pilão |
| u:hso:ɂstí:yi | for him to pound | para ele socar/bater |
| tikohwe:lóɂti | pencil, pen | lápis, caneta |
| u:wohwe:loɂtí:yi | for him to write | para ele escrever |
Verbos
[editar | editar código]Em sua forma mais simples, um verbo contém apenas um prefixo pronominal, um radical verbal, um sufixo de aspecto e um sufixo modal. No entanto, formas mais elaboradas podem incluir prefixos pré‑pronominais, morfemas reflexivos, raízes nominais incorporadas, raízes verbais posicionais, além de sufixos derivacionais, compondo estruturas longas típicas da natureza polisintética da língua.
A base verbal é o núcleo semântico do verbo e pode incorporar múltiplos elementos. Morfemas reflexivos como -a-, -ata-, -ali- e -atata- adicionam funções de voz média, reflexividade, destransitivação ou reciprocidade (esta última formada quando o reflexivo se combina ao distributivo te:-). Assim, formas como kataworʼa ‘estou me banhando’ ou i:ntakohwthíha ‘nós nos vemos’ ilustram o papel central desses morfemas na reorganização dos papéis participantes. Da mesma forma, o alomorfo -atata- pode marcar ações feitas para benefício próprio ou expressar reciprocidade em estruturas como tataʔntata:kohi ‘nós nos veremos’.
Outro elemento estrutural importante é a incorporação nominal, hoje pouco produtiva, mas ainda presente sobretudo com partes do corpo e itens de vestuário, como em kakvʔskwoʔa ‘estou lavando meu rosto’. Alguns desses verbos incorporados fossilizaram-se como expressões idiomáticas e outros tornaram-se parte do sistema de verbos classificatórios, que constituem um domínio próprio.
A composição de raízes verbais também foi produtiva historicamente: certos verbos combinam raízes diferentes dentro da própria base, como em tsikoʔwthiha ‘eu o vejo’, onde dois radicais — “ver” e “lançar o olhar” — coexistem. Embora essa composição não seja mais produtiva, ela ainda aparece na formação de vários verbos classificatórios e derivados.
Sobre os sufixos derivacionais, o cherokee dispõe de uma série de morfemas que modificam o significado e a valência do verbo. Entre eles, -ki: expressa reversão (‘desfazer’), -ihst- codifica causação indireta por instrumento, -e:- / -hsi marca o dativo (‘fazer para alguém’), -e:- / -u:ʔka indica movimento em direção ao local da ação (‘approaching’), -hi- marca propósito, -hiʼs- marca repetição enfática, -i:to:- indica ação em vários lugares (ambulative), -ilo:- marca repetição contínua, e -ohn indica completude da ação. Esses sufixos apresentam uma ordem fixa, refletindo hierarquias semânticas internas, embora alguns casos raros mostrem “segunda passagem” derivacional, em que dois sufixos se reorganizam para compor novos significados. Entre eles, destacam-se o dativo e o causativo‑instrumental, que alteram a estrutura argumental do verbo, forçando o uso de prefixos transitivos e reinterpretando os participantes — como em tsi:loʔeha ‘estou quebrando isso para John’ (dativo) ou tsiloʔihstiha ‘estou quebrando o pote com isso’ (instrumental).
Dentro desse quadro complexo, os verbos classificatórios representam um sistema altamente desenvolvido de seleção verbal baseada na forma física do objeto (transitivos) ou do sujeito (intransitivos). Eles classificam a entidade envolvida em uma das classes principais: R (objeto redondo), L (longo e rígido), F (flexível), Q (líquido) e A (animado). Essas classes surgem de raízes classificatórias produtivas, como -hn- (posicionar objeto redondo), -t- (objeto longo), -v:ʔn- (objeto flexível), -na- (nome para objetos flexíveis) e -ne:- (nome para líquidos). Essas bases frequentemente se combinam com raízes posicionais como “em”, “dentro”, “na água”, “no fogo”, “pendurado”, “elevado”, criando famílias de verbos estruturadas — por exemplo, “colocar X em”, “pôr X na água”, “dar X”, “pendurar X”, ou “tirar X de algum lugar”.
Essas bases classificatórias são muitas vezes opacizadas por metátese laringal e vocalização, fenômenos fonológicos típicos do cherokee que deslocam /h/ e /ʔ/ e transformam /n/ em /v/ em certos ambientes. Assim, formas superficiais como tsiʼlahska ‘coloco objeto redondo dentro’ aparentam irregularidade, mas derivam sistematicamente de bases como -lahn-, por meio de metátese sucessiva e n‑vocalização. O sistema também apresenta supletivismo em áreas como “cair” e “comer”, que usam raízes especiais em vez das classificatórias regulares.
Os verbos classificatórios formam um conjunto extenso e capaz de expressar distinções minuciosas sobre a forma, consistência e comportamento físico do objeto na cena verbal. Essa riqueza expressiva não é isolada, mas integra-se naturalmente à estrutura modular do verbo cherokee, em que prefixos, bases, raízes incorporadas e sufixos derivacionais interagem para gerar significados altamente específicos. A base verbal cherokee, com sua capacidade de acomodar múltiplas camadas semânticas e morfológicas, representa um dos sistemas verbais mais complexos documentados nas línguas indígenas norte‑americanas, combinando polisíntese, classificação nominal, derivação estruturada e processos fonológicos intrincados em uma única arquitetura coerente.
Vocabulário
[editar | editar código]Declaração Universal dos Direitos Humanos
[editar | editar código]Ꮒꭶꮣ ꭰꮒᏼꮻ ꭴꮎꮥꮕꭲ ꭴꮎꮪꮣꮄꮣ ꭰꮄ ꭱꮷꮃꭽꮙ ꮎꭲ ꭰꮲꮙꮩꮧ ꭰꮄ ꭴꮒꮂ ꭲᏻꮎꮫꮧꭲ. Ꮎꮝꭹꮎꮓ ꭴꮅꮝꭺꮈꮤꮕꭹ ꭴꮰꮿꮝꮧ ꮕᏸꮅꮫꭹ ꭰꮄ ꭰꮣꮕꮦꮯꮣꮝꮧ ꭰꮄ ꭱꮅꮝꮧ ꮟᏼꮻꭽ ꮒꮪꮎꮣꮫꮎꮥꭼꭹ ꮎ ꮧꮎꮣꮕꮯ ꭰꮣꮕꮩ ꭼꮧ.
Nigada aniyvwi unadenvi unadudaleda ale etsulahaquo nai atlvquododi ale unihv iyunadvdii. Nasginano ulisgolvtanvgi utloyasdi nvyelidvgi ale adanvtetlidasdi ale elisdi siyvwiha nidunadadvnadegvgi na dinadanvtli adanvdo gvdi.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos
Referências
[editar | editar código]Alonso, A. M. B. Z., & Mendes, P. H. A. (2023). Lutas da fênix e da murta: estratégias e desafios na preservação das línguas cherokee e guarani. Revista Horizontes De Linguistica Aplicada, 22(2), DT5. https://doi.org/10.26512/rhla.v22i2.46989
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