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Julius Martov

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Julius Martov
Юлий Мартов
Martov em retrato de Yakov Steinberg (1917)
Nome completoYuli Osipovich Tsederbaum
Outros nomesL. Martov
Nascimento
Morte
4 de abril de 1923 (49 anos)

FiliaçãoPOSDR (1902 - 1912)
POSDR (menchevique) (1912 - 1923)

Iuli Osipovich Tsederbaum (em russo: Юлий Осипович Цедербаум; Constantinopla, 24 de novembro de 1873Schömberg, 4 de abril de 1923), mas conhecido pelos seus pseudônimos, Julius Martov, L. Martov, ou simplesmente Martov[nota 1], foi um teórico marxista, revolucionário e líder dos mencheviques, a facção minoritária do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).[1]

Nascido em uma família de classe média judaica, Martov se tornou um militante marxista na Rússia a partir da última década do século XIX.[2][3][4] Fundou, junto com outros sociais-democratas russos, incluindo Lênin, a Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora em 1895.[2][5] Foi preso e condenado ao exílio na Sibéria naquele ano. Depois do exílio, Martov fundou o jornal Iskra junto a Lênin, que se tornou o principal periódico socialista russo.[6][7] Em 1903, na ocasião do Segundo Congresso do POSDR, Martov entrou em conflito com Lênin sobre quem deveria ser considerado filiado ao partido: a proposta de Martov foi vencedora porém, quando da definição do Comitê Central do partido, a facção de Lênin acabou sendo majoritária, levando à divisão entre bolcheviques (majoritários) e mencheviques (minoritários).[1][8][9][10]

Como líder dos mencheviques, Martov desenvolveu uma teoria política radicalmente distinta daquela de Lênin, defendendo que a Rússia deveria passar primeiro por uma revolução burguesa antes de uma revolução proletária. Durante a Revolução Russa de 1905, Martov avaliava ser prematura a tomada do poder pelos socialistas, uma vez que inexistiam na Rússia Imperial os pré-requisitos econômicos e sociais teorizados por Karl Marx para a implantação do socialismo.[11] Para Martov, a oposição revolucionária deveria se organizar gradualmente em dumas provincianas, sovietes e cooperativas, grêmios e sindicatos de trabalhadores, até que a revolução popular substituísse espontaneamente o governo autocrático.[11] Em 1912, as duas facções se tornaram partidos políticos separados.[12]

Permaneceu um internacionalista ferrenho durante a Primeira Guerra Mundial, participando da Conferência de Zimmerwald.[12] Após a Revolução de Fevereiro, que derrubou o tsarismo na Rússia, defendeu que os mencheviques não deveriam se aliar ao governo provisório e criticou ferrenhamente os mencheviques que o fizeram, formando a facção internacionalista do partido menchevique e defendendo a formação de um governo único dos partidos socialistas.[13][14][15] Após a Revolução de Outubro, Martov se tornou o líder da oposição legal ao governo bolchevique. Nessa posição ele denunciou a violência do Terror Vermelho, a dissolução da Assembleia Constituinte Russa, a repressão aos direitos democráticos enquanto se opunha à intervenção estrangeira e ao Movimento Branco durante a Guerra Civil.[11][16][17] Saiu da Rússia em 1920 onde fundou, no exílio, o jornal Mensageiro Socialista em Berlim, que continuou sendo uma publicação dos mencheviques exilados por décadas. Sofrendo de uma tuberculose crônica desde o seu exílio na Sibéria, faleceu na Alemanha em 1923.[18]

Primeiros anos

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Família e infância

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Uma fotografia em tons de sépia do busto de um homem idoso. Ele é calvo em toda a sua fronte, com um recuo dos cabelos de sua testa até quase o meio da cabeça. Ele tem barba grande que, assim como o cabelo, é encaracolado, quase crespo. Ele tem o nariz em formato de gancho e olhos com as pálpebras caídas. Ele veste um terno com uma gravata borboleta no pescoço.
Alexander Osipovich Tsederbaum, avô paterno de Martov, em fotografia de 1885.

Martov nasceu Iuli Osipovich Tsederbaum em 24 de novembro de 1873 na cidade de Constantinopla, então capital do Império Otomano. A família de Tsederbaum, durante boa parte do século XIX, havia feito parte do movimento intelectual judaico conhecido como Haskalá (em português: sabedoria), popularmente denominado como o Iluminismo judaico: o avô de Iuli, Alexander Tsederbaum, havia sido o fundador dos primeiros jornais escritos em hebraico e em iídiche na Rússia e havia sido um defensor, durante as décadas de 1870 e 1880, de que a comunidade judaica da Rússia deveria se emancipar através da educação e procurar uma conciliação com o regime tsarista.[19] Ao final da vida, Alexander, desiludido com o antissemitismo do governo russo mesmo frente às tentativas de aproximação por parte dos judeus, se tornou sionista e ortodoxo.[20]

O pai de Iuli, por sua vez, Osip Tsederbaum, também era fruto da Haskalá, sendo versado em várias línguas e trabalhando como jornalista correspondente de diversos jornais russos na Turquia, além de ser secretário-geral da Companhia Russa de Navegação.[21] Osip era um judeu assimilado e se declarava um liberal democrata. Dos oito filhos e filhas do casal, sete se envolveriam em atividades revolucionárias na Rússia entre o final do século XIX e o início do século XX.[20]

Juventude

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Quando Iuli tinha quatro anos de idade, Osip e a família se mudaram para Odesa, na atual Ucrânia, onde presenciaram o pogrom de 1881, parte de uma grande onda de violência antissemita após o assassinato do tsar Alexandre II.[22] Durante toda sua juventude, Iuli seria sujeito a constantes atos de violência antissemita. Alguns meses após o pogrom, Osip e sua família se mudaram para São Petersburgo.[23] Em 1887, mudaram-se novamente, dessa vez para Tsarkoye Selo – atual município de Pushkin – e, em 1889, de volta para São Petersburgo, onde quase foram expulsos devido a dispositivos legais da Rússia que restringiam o direito de judeus viverem em determinados locais. Foram nesses anos que Iuli entrou em contato, pela primeira vez, com obras de literatura revolucionária e, também, com os atos terroristas do grupo Narodnaia volia (em português: Vontade do Povo). No último ano do ginásio, Iuli entrou em um grupo de estudos composto por alunos democratas, onde entraria em contato pela primeira vez com tratados políticos proibidos na Rússia, como os trabalhos de Ferdinand Lassale, Friedrich Engels e Karl Marx, particularmente o Manifesto do Partido Comunista, que lhe causou forte impressão.[24]

Uma fotografia em preto e branco de um homem jovem. Ele está virado de frente para a câmera, com os olhos olhando diretamente a frete. Ele tem uma franja escura que cai sobre sua testa e quase nenhum pelo facial além de um quase imperceptível bigode. Ele veste um uniforme parecido com um traje militar, com uma gola alta mais clara que o corpo da roupa e botões dos dois lados do peito. O tecido da roupa é escuro.
Iuli Tsederabum em fotografia tirada pela polícia após ser preso pela primeira vez em 1892.

Em 1891, Iuli prestou o exame admissional para a entrada na Universidade Imperial de São Petersburgo e obteve boas notas. Contudo, sua entrada na universidade só foi permitida após os apelos de seu avô ao Ministério da Educação Pública, já que a sua entrada violaria o numerus clausus de judeus permitidos em universidades na Rússia.[25] Apesar de estar em contato, nesse momento, com grupos marxistas e populistas, Tsederbaum ainda não se considerava pertencente a nenhum dos dois campos, acreditando mais na possibilidade de uma repetição da revolução francesa na Rússia.[26] Em fevereiro de 1892, Iuli foi preso com mais quatro colegas por estar distribuindo literatura revolucionária a trabalhadores. Alguns meses depois ele foi expulso da universidade.[27]

Enquanto aguardava sua sentença solto sob fiança paga por seu avô, Iuli entrou em contato com a tradução francesa d'O Capital de Karl Marx e passou a se declarar marxista e social-democrata.[28] Nesse período, fundou com seus amigos o "Grupo para a Emancipação do Trabalho de São Petersburgo", no qual Iuli escreveu o seu primeiro trabalho publicado: um prefácio para a obra "Coletivismo" de Jules Guesde.[29] Entretanto, em 1893, antes que essa edição com o prefácio do grupo pudesse ser publicada, entretanto, Iuli foi preso novamente, tendo sido condenado a cinco meses de confinamento solitário. Após esse período, foi sentenciado administrativamente ao banimento por dois anos das duas capitais da Rússia – Moscou e São Petersburgo – e de todas as cidades que hospedassem uma universidade. Antes de partir para o exílio, entretanto, pode permanecer um mês em São Petersburgo, período que aproveitou para redigir uma mensagem ao Congresso da Segunda Internacional que estava acontecendo em Zurique naquele momento. Assinado pelo Grupo para a Emancipação do Trabalho, esse foi o primeiro comunicado recebido pela Internacional por um grupo social-democrata da Rússia.[30]

Primeiro exílio e volta para São Petersburgo

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Exílio em Vilno

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Assim, a tarefa dos sociais-democratas é conduzir uma agitação constante entre os operários da fábrica com base nas necessidades e demandas mesquinhas existentes. A luta suscitada por tal agitação treinará os operários para defender seus próprios interesses, aumentará sua coragem, dará-lhes confiança em sua força, uma consciência da necessidade de unidade e, finalmente, colocará diante deles as questões mais importantes que exigem soluções. Tendo sido preparada desta forma para a luta mais séria, a classe operária procede à resolução dessas questões vitais, e a agitação com base nessas questões deve ter como objetivo a formação da autoconsciência de classe. A luta de classes nesta forma mais consciente estabelece a base para a agitação política, cujo objetivo será alterar as condições políticas existentes em favor da classe operária. O programa subsequente dos sociais-democratas é evidente.

Iuli Tsederbaum e Arkadi Kremer, "Sobre a Agitação"[31]

Em maio de 1893, Iuli partiu para o exílio na cidade de Vilno – atual Vilnius, capital da Lituânia então parte do Império Russo localizada na "Zona de Assentamento", região onde era permitida a residência dos judeus –. Ali continuou suas atividades revolucionárias, se encontrando com outros sociais-democratas integrantes da comunidade judaica.[32] Em 1894, Iuli Tsederbaum e seus companheiros decidiram começar a reunir esforços para a criação de um partido de massas destinado à agitação da classe proletária, para esse propósito, em 1894 co-autorou com Arkadi Kremer o panfleto "Sobre a Agitação", o primeiro texto de Iuli a atingir grande sucesso no Império Russo. Nesse texto, Kremer e Tsederbaum defendem que a ação dos agitadores será mais útil para a emancipação da classe trabalhadora do que a do mero propagandista enquanto essa ação servir como base para a formação de uma consciência coletiva dessa classe.[33]

Em um discurso proferido no Dia do Trabalho de 1895, em Vilno, Iuli defendeu que o proletariado judaico – apesar de dever colaborar com o proletariado de outras etnias e nacionalidades para a derrubada do tsarismo e da exploração pela burguesia – deveria manter sua independência e lutar, no plano imediato, pela emancipação do povo judeu e o fim da discriminação racial. Posteriormente, essas ideias seriam fundadoras da União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia, movimento socialista mais conhecido como "Bund" (em português: União), ao ponto que seriam publicadas pela Bund sob o título "Um ponto de virada da história do Movimento de Trabalhadores Judeus".[34][35]

Volta para São Petersburgo

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Fotografia em preto e branco de sete homens adultos vestindo ternos. Três deles estão de pé ao fundo e quatro sentados à frente. Dos homens em pé, o primeiro, da esquerda para a direita, tem a mão repousada ligeiramente a frente de seu corpo; o segundo está com os braços colocados atrás das costas enquanto o terceiro está com um dos braços repousando sobre uma pequena pilastra. Dos homens sentados, o primeiro, da esquerda para a direita, está sentado ao contrário em uma cadeira com os braços cruzados; o segundo, também com os braços cruzados e pernas cruzadas, está apoiando um deles sobre uma pequena mesa com dois livros sobre ela; o terceiro e o quarto homem estão fazendo a mesma coisa.
Membros da Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora de São Petersburgo, em fotografia de 1897. Iuli Tsederbaum é o último sentado da esquerda para a direita. Ao seu lado, também sentado, está Vladimir Ulianov – futuro Lênin.

O exílio administrativo de Iuli terminou em 1895, ocasião na qual ele voltou para São Petersburgo. Ao chegar na capital, reuniu-se com os remanescentes do Grupo para a Emancipação do Trabalho de São Petersburgo, que havia fundado antes do exílio, e recomendou que deixassem de ser um grupo meramente propagandístico e passassem a adotar os métodos propostos no panfleto "Sobre a Agitação". Mais tarde, esse grupo seria fundido com outros grupos que mantinham um contato mais estreito com círculos de trabalhadores para formar a "Liga de Luta pela Emancipação da Classe Operária de São Petersburgo". Entre os fundadores dessa liga, além de Martov, estava Vladimir Ilitch Ulianov – que mais tarde assumiria o pseudônimo "Lênin". Logo de partida foram estabelecidos três comitês em três regiões industriais da cidade e também foi fundado o periódico oficial da Liga, denominado "Rabochee delo" ("Рабочее дело"; em português: Causa Operária).[36]

Entretanto, a existência dessa liga seria curta. A polícia secreta da Rússia, a Okhrana, estava monitorando Tsederbaum desde que havia voltado de Vilno e, apenas três meses após fundar o seu grupo de agitação, ele seria preso junto com grande parte de seus camaradas, incluindo Vladimir Ulianov. Os membros da liga passariam todo o ano de 1896 presos em São Petersburgo. Em fevereiro de 1897 eles seriam soltos e enviados, três dias depois, para o exílio na Sibéria, onde deveriam passar os próximos três anos. Foram durante esses três dias que Tsederbaum iniciou sua amizade com Ulianov.[37]

Sibéria e Iskra

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Exílio em Turukhansk

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Iuli Tsederbaum foi enviado para a vila de Turukhansk, na Sibéria, próxima ao Círculo Polar Ártico. Antes de partir, os marxistas russos haviam concordado em não resistir à punição do regime tsarista em fugindo para o exterior, mas utilizar o período no exílio para o desenvolvimento de tarefas intelectuais e o amadurecimento político. Durante esses anos, Tsederbaum trabalharia como jornalista para diversos periódicos siberianos e manteria em contato estreito com Vladimir Ulianov, com que desenvolveria uma amizade próxima. Devido ao clima difícil da Sibéria, Tsederbaum contrairia uma tuberculose crônica que o castigaria pelo resto da vida e seria, anos depois, a causa de sua morte.[38]

Iuli Tsederbaum continuaria, durante o exílio, a produzir textos revolucionários. Em "A Causa Operária na Rússia" – escrita logo após a primeira fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo, em Minsk –, ele passou a defender que as greves de trabalhadores – apesar de serem de suma importância para a prática política – não eram suficientes para mudar a estrutura política autocrática da Rússia. Sendo assim, segundo ele, os sociais-democratas não deveriam dispensar a participação nos canais de manifestação liberais burgueses: como a entrega de petições ao governo; o apoio a manifestações estudantis; o apoio à autonomia de povos sujeitos ao imperialismo russo, como os finlandeses; entre outros.[39]

Período no jornal Iskra

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Digitalização de um jornal envelhecido pelo tempo. No cabeçalho é possível ler, em letras cirílicas, a palavra "ISKRA". O corpo do jornal é dividido em três colunas com letras menores.
Primeira edição do jornal Iskra, publicada em dezembro de 1900

Ao final do exílio, Iuli Tsederbaum recebeu o convite de Ulianov para fundar um jornal que serviria como órgão de combate ao economicismo e revisionismo. Tsederbaum aceitou e, assim que seu exílio terminou, fundou, junto de Vladimir Ulianov – que agora usava o pseudônimo Lênin –, e Alexei Potresov o jornal Iskra ("Искра"; em português: "Faísca" ou "Centelha").[40] Enquanto Lênin e Potresov (junto de outros marxistas russos mais antigos como Gueorgui Plekhanov, Pavel Akselrod e Vera Zasulitch) organizavam o corpo editorial da Iskra em Munique, Tsederbaum organizava a rede de distribuição do periódico na Rússia, tarefa que empreendeu durante quase um ano até se juntar aos outros editores no exterior entre março e abril de 1901.[41]

Em Munique, Tsederbaum adotou a alcunha "L. Martov", em homenagem ao mês de março (em russo: Март; translit.: "Mart"), que considerava particularmente revolucionário.[42] Escrevendo para o Iskra, Martov passou a atacar todos os inimigos da social democracia marxista russa, em especial o economicismo, o revisionismo e os socialistas revolucionários, que Martov enxergava como aliados da burguesia na tarefa de evita que os trabalhadores criassem uma força política independente.[43] Segundo Martov, a tarefa dos social democratas, nesse momento, seria atuar junto ao proletariado para desmontar a dominação capitalista e instigar a formação de uma consciência cívica para que lutassem por seus direitos.[44]

Martov, nesse período – assim como os demais editores do Iskra – concordava com Lênin que, durante o intervalo de tempo em que a social democracia não pudesse se organizar como partido unificado representante do proletariado, esse deveria ser "tutelado" pelos sociais democratas para não se degenerar em um movimento baseado apenas nas suas demandas imediatas.[45] Em junho de 1902, o Iskra publicou um rascunho do que deveria ser um programa para um partido social democrata russo. Ao final daquele ano, a tese de unificação defendida pelo jornal havia se tornado majoritária entre os grupos compostos de não-judeus na Rússia. A principal dificuldade para a unificação, portanto, passou a ser a resistência do Bund.[46] A partir desse período, Martov passou a atacar seus antigos companheiros da Bund, argumentando que a emancipação da classe operária na Rússia deveria ser obra de toda a classe operária, e que os trabalhadores judeus deveriam atuar lado a lado com os trabalhadores russos nessa empreitada. Se a Bund era importante, Martov dizia, ela o era enquanto parte de um movimento social democrata mais amplo.[47]

Foi durante esse período em que Martov trabalhou como membro do Iskra em que as primeiras fraturas entre os social democratas russos apareceram. Em 1903, chegou ao conhecimento dos editores a história de um contribuidor, Nikolai Bauman, que havia engravidado uma mulher casada com a esposa de outro revolucionário. Bauman então, passou a humilhar publicamente a amante e a circular charges retratando-a ironicamente como a virgem Maria. A mulher foi levada ao suicídio e, em sua carta, pediu que os editores do Iskra expulsassem Bauman da organização. Martov e Pavel Akselrod exigiram que Bauman fosse expulso, enquanto Lênin, que era fiador de Bauman, defendeu que o caso fosse arquivado por se tratar, supostamente, de uma questão meramente pessoal. Após ameaçar expor o caso publicamente caso Bauman fosse expulso, o Iskra acabou arquivando o caso e Bauman permaneceu na organização.[48]

Refundação do Partido Operário Social-Democrata Russo

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Antecedentes

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Desde 1900 os membros do Iskra estavam estabelecendo conexões na Rússia para a organização de um congresso de refundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) – criado originalmente em 1898 e desmantelado rapidamente pela polícia secreta tsarista. Lênin, em particular, estava atuando entre os grupos russos sob uma estratégia que levaria à formação de uma hegemonia pró-Iskra no congresso.[49] Ao final de 1902, os simpatizantes do Iskra já eram maioria entre os grupos compostos de não-judeus.[46]

Pouco meses antes do congresso, Martov já indicava sua preferência para a forma da constituição do partido. Em um artigo escrito em abril de 1903 à revista Przeglad Socjaldemokratyczny, de Rosa Luxemburgo, Martov defendeu que, a fim de conciliar a necessidade de conspiração para a ação dos sociais democratas e o caráter do partido como uma organização de massas, era preciso que o partido compreendesse uma ampla rede de organizações menores (como sindicatos) que seriam, por sua vez, coordenadas – e teriam a integridade ideológica garantida – pelo partido. Pouco tempo depois Martov apresentou uma proposta de constituição partidária que compreenderia uma ampla delegação de poderes a organismos regionais. Lênin discordou da proposta de Martov e apresentou a sua própria – que, por sua vez, era bem mais centralizadora do que a de Martov – e que foi a que acabou sendo votada no Segundo Congresso do POSDR alguns meses depois.[50]

II Congresso do POSDR

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Quando o Segundo Congresso do POSDR foi aberto em Bruxelas no dia 30 de julho de 1903, a maioria dos seus membros estavam afiliados ao campo simpático às propostas do jornal Iskra. Seguindo junto de Lênin e de seus companheiros no periódico, Martov foi um dos mais ferrenhos opositores à proposta da Bund de autonomia dentro do partido para atuar junto aos trabalhadores judeus, que foi rapidamente rejeitada pelo congresso. Também nesse primeiro momento foi aceito de forma relativamente rápida a adoção do programa do Iskra – escrito por Lênin para o POSDR.[51] Pouco tempo depois dessas deliberações, entretanto, o congresso foi forçado a se deslocar de Bruxelas – onde estavam sob a "mira" da polícia belga, pressionada pela Rússia – para Londres.[52]

Delegados "mencheviques" (minoritários, topo), anti-"Iskraístas" (meio) e "neutros" que participaram do II Congresso do POSDR. Martov é o primeiro da linha superior.

Apesar do acordo contra as propostas feitas pelos delegados do Bund, Martov e Lênin logo entraram em conflito com relação à formulação do primeiro parágrafo do estatuto do POSDR. Lênin propôs uma definição estrita que limitava a participação àqueles que pessoalmente participavam da organização do partido. Martov, por sua vez, propôs uma formulação mais ampla, que estendia a participação a todos aqueles que aceitassem o programa do partido e que trabalhassem guiados "sob uma das organizações partidárias".[53][54][55][56] Martov argumentava que a proposta de Lênin era demasiada conspiratória e excluiria muitos trabalhadores e intelectuais que eram simpáticos à social democracia mas que não tinham condições de se tornarem revolucionários em tempo integral.[57] O desacordo rachou o campo de apoiadores do Iskra e o próprio partido. Lênin mobilizou seus apoiadores para difamar publicamente a figura de Martov, cunhando os seus apoiadores de "moles".[58]

A proposta de Martov estava alinhada às ideias que ele já vinha defendendo antes do congresso: uma visão de um partido amplo que constituiria "a expressão consciente de um processo inconsciente", um "volante que colocaria em movimento o trabalho do partido como um todo", enquanto Lênin defendia uma organização disciplinada e centralizada de "revolucionários profissionais".[59][58][56] A proposta de Martov foi aprovada por 28 votos favoráveis a 23 votos contrários.[60][61]

Entretanto, o equilíbrio de poder mudou quando seis delegados do Bund e dois da União de Social Democratas Russos no Exterior se retirou do congresso após ter as suas propostas derrotadas. Lênin aproveitou a nova maioria para eleger a sua chapa para o Comitê Central e o corpo editorial do Iskra. Ele propôs reduzir o tamanho do conselho editorial pela metade – de seis para três –, mantendo ele próprio, Plekhanov e Martov no jornal enquanto Pavel Akselrod, Vera Zasulitch e Alexei Potresov (apoiadores de Martov) seriam retirados da organização. Indignado pelo "sítio" montado por Lênin e pelas propostas que ele via como sendo uma violação dos princípios de camaradagem que até então tinham guiado o movimento social democrata, Martov se recusou a tomar posse no novo conselho editorial e organizou a minoria derrotada em oposição a Lênin e seus apoiadores.[62][63][64] Dessa divisão emergeram as duas facções do POSDR: os bolcheviques (do russo "большинство", translit.: "boljšinstvo" , que significa "maioria"), que apoiavam Lênin, e os mencheviques (do russo ''меньшинство'', translit.: menjšinstvo, que significa "minoria"), que apoiavam Martov.[65]

Líder menchevique

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Apesar da vitória de Lênin no Segundo Congresso do POSDR, Martov logo se encontrou em uma posição favorável para contra-atacar. No Segundo Congresso da Liga Estrangeira em Genebra – a organização que representava o POSDR no exterior – Martov conseguiu obter uma maioria de 18 delegados "macios" (que contabilizavam 22 votos), ao passo que os apoiadores de Lênin – chamados de "duros" – só contabilizavam 15 delegados com 18 votos. Martov aproveitou a nova maioria para se distanciar de uma posição centralizadora que, durante o período do Iskra, o havia caracterizado: dizia ele que, com um partido operário formado, a tendência centralizadora de Lênin inevitavelmente levaria a organização a se degenerar em uma "organização golpista burocrática" ao invés de um partido verdadeiramente operário.[66]

Em novembro, Plekhanov, inquieto pela atitude intransigente de Lênin para com os seus críticos, trouxe Martov, Akselrod, Potresov e Zasulitch de volta ao conselho editorial do Iskra, levando Lênin a ficar novamente na minoria. O Comitê Central do POSDR, por sua vez, apesar de ser composto em sua maioria por bolcheviques, também se recusou a convocar um terceiro congresso partidário para submeter ou expulsar os apoiadores de Martov.[67]

Revolução de 1905

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A derrota russa na guerra russo-japonesa e a revolução que se seguiu fez com que, para Martov, as disputas internas do partido perdessem importância.[68] Mesmo assim, em abril de 1905, os bolcheviques convocaram o seu próprio congresso partidário em Londres, ao que os mencheviques responderam com o seu próprio congresso em Genebra em maio. Nele Martov defendeu a democratização do partido, a introdução da eleição para cargos nas suas instituições e o abstencionismo dos socialistas do governo revolucionário que emergiria na Rússia, que Martov considerava despreparada para o socialismo.[69]

Durante a revolução, Martov defendeu que o papel dos revolucionários deveria ser formar uma oposição militante ao novo governo burguês, criando uma rede de sindicatos, cooperativas, conselhos rurais e sovietes que pressionassem o governo até que fossem produzidas as circunstâncias sociais e econômicas que fariam possível a revolução socialista. Em uma sociedade pouco industrializada o partido não deveria, segundo Martov, cair na tentação de tomar o poder a força ou entrar em coalizões com a burguesia no governo.[70] No final de outubro, Martov regressou a Rússia de Viena e reconheceu nos sovietes (os conselhos operários que haviam sido formados durante a revolução) uma forma de auto-organização revolucionária alternativa ao governo burguês, e se opôs ao controle desses órgãos da classe trabalhadora pelo partido, como propunham os bolcheviques.[71]

Martov sempre pertenceu à ala esquerda da facção menchevique e apoiou a reunificação com os bolcheviques em 1905. Essa frágil unidade foi de curta duração, no entanto, e em 1907 as duas facções haviam novamente dividido em dois. Em 1911, Martov escreveu o panfleto "Spasiteli ili uprazdniteli? Kto i kak razrushal RS-DRP", ("Salvadores ou destruidores? Quem destruiu o POSDR e como"), que denunciou os bolcheviques entre outras coisas por arrecadar dinheiro por "expropriações", ou seja, roubando bancos.[72] Este folheto foi criticado por Karl Kautsky e Lênin.

Primeira Guerra Mundial

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O início da Primeira Guerra Mundial implodiu a Segunda Internacional e aprofundou as divisões entre os social democratas russos. De Paris, onde criou, com Trótski, o jornal internacionalista Nashe slovo ("Наше Слово"; em português: "Nossa Palavra"), adotou a postura que se tornaria majoritária entre os mencheviques: a de um internacionalismo pacifista aguerrido e de uma oposição completa ao conflito, a qual ele enxergava como uma guerra imperialista.[3][12][73] Martov se opunha, nesse momento, à posição dos ditos "sociais imperialistas" que apoiavam o esforço de guerra de seus governos nacionais – uma posição conhecida como defensismo e defendida, dentro do partido menchevique, por socialistas como Potresov – e, ao mesmo tempo, ao derrotismo proposto por Lênin e defendido por boa parte dos bolcheviques, que defendia a transformação da guerra mundial em várias guerras civis internas.[12][74][75][76]

Em 1915, representando o Nashe slovo, participou da conferência de Zimmerwald, na Suíça, que reuniu os socialistas de diversos países da Europa contrários à guerra.[77] Martov defendia o fim imediato das hostilidades e a conclusão de uma paz ditada pelos partidos socialistas radicais.[77] Para ele, a guerra tinha sido causada pela disputa pela hegemonia mundial entre dois centros do poder financeiro imperialista: um localizado em Berlim e o outro em Londres e Paris. Nesse quadro, a tarefa da revolução era a destruição deste poder econômico pelo bem da humanidade.[78] A vitória de um polo ou outro, argumentava Martov, não avançaria de modo algum a causa socialista, sendo necessária uma paz negociada sem anexações ou indenizações de guerra.[79]

A formação de comitês de indústrias bélicas criou uma nova fonte de discórdia no seio do socialismo russo.[77] Martov, que pouco tempo antes da guerra havia acreditado na possibilidade de a burguesia desempenhar um papel positivo no processo revolucionário, abandonou essa opinião e se opôs à participação dos socialistas nos comitês, porque agora considerava a colaboração com a burguesia impossível.[80][77]

Revoluções de 1917

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Revolução de Fevereiro

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Fotografia em preto e branco de três homens adultos caminhando em uma via pública. Os três vestem terno e chapéu. O primeiro, com barba grisalha, está mais afastado dos outros dois e, enquanto carrega um guarda chuva com uma mão, estende a outra na direção do segundo homem; esse segundo homem, que, por sua vez, veste um sobretudo por cima de seu terno, está com os braços juntos ao corpo e também carrega um guarda chuva em sua mão direita; o terceiro homem da imagem, por fim, é o único que veste roupas em tons mais claros: um chapéu e um sobretudo por cima de um terno escuro, além de ser o único que não carrega nada em suas mãos. Ao fundo da imagem é possível ver vários outros transeuntes caminhando, incluindo uma criança e um homem carregando uma bengala.
Martov (centro) caminhando em Estocolmo, na Suécia, no mês de maio de 1917. Ao seu lado estão Pavel Akselrod (esquerda) e Alexander Martinov (direita).

Após a Revolução de Fevereiro de 1917, Martov retornou à Rússia, mas era tarde demais para impedir alguns mencheviques de ingressarem no Governo Provisório. Ele criticou fortemente esses mencheviques como Irakli Tsereteli e Fedor Dan que, agora parte do governo da Rússia, apoiavam o esforço de guerra. No entanto, em uma conferência realizada em 18 de junho de 1917, ele não conseguiu obter o apoio dos delegados para uma política de negociações de paz imediatas com as Potências Centrais.

Revolução de Outubro

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Em primeiro lugar, é imperativo assegurar uma resolução pacífica à crise. Sangue está sendo derramado nas ruas de Petrogrado! É necessário parar as ações militares em ambos os lados. Uma resolução pacífica da crise pode ser atingida pela criação de uma autoridade política que seria reconhecida por toda a democracia[nota 2].

Martov, Discurso proferido ao Segundo Congresso dos Sovietes.[81]

Após a tomada do poder pelos bolcheviques no início de novembro de 1917 (outubro no calendário juliano), como sinal de protesto contra a insurreição, os mencheviques e socialistas revolucionários presentes no Segundo Congresso de Sovietes se recusou a fazer parte do presídio da organização. Martov, naquele momento, tomou a palavra e implorou aos delegados que a luta cessasse e que os partidos socialistas entrassem em um acordo para a formação de um governo democrático. O apelo de Martov foi recebido, no congresso com uma onda de aplausos e a sua proposta foi aceita por unanimidade.[82]

Alguns momentos depois, entretanto, vários delegados mencheviques e socialistas revolucionários seguiram a denunciar os bolcheviques como usurpadores e a declarar as suas intenções de deixar o congresso e organizar a resistência às ações militares dos bolcheviques. Isso levantou os ânimos no congresso e Trótski aproveitou para enterrar qualquer possibilidade de conciliação, mandando os SRs e mencheviques irem para a "lata de lixo da história". Martov e os demais mencheviques foram obrigados a se retirar. Anos depois, o historiador menchevique Boris Nicolaevski diria que, enquanto Martov se retirava, um operário bolchevique teria dito a Martov que pensava que "alguns deveriam nos deixar, mas não Martov", ao que ele respondeu: "um dia você vai compreender o crime no qual está participando".[82][83]

Oposição ao governo bolchevique

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Primeiros meses

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Por um tempo Martov liderou o grupo de oposição menchevique na Assembleia Constituinte até que os bolcheviques a aboliram. Mais tarde, em uma ocasião, uma seção da fábrica escolheu Martov como seu delegado à frente de Lênin em uma eleição. Pouco tempo depois a fábrica encontrou o seu abastecimento reduzido.

Guerra civil

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Durante a Guerra Civil Russa, Martov apoiou o Exército Vermelho contra o Exército Branco; No entanto, ele continuou a denunciar a perseguição de opositores políticos dos bolcheviques que eram pacíficos, tanto os social-democratas, quanto sindicalistas e anarquistas. Falando do Terror Vermelho, Martov disse: "A besta gostou de lamber o quente sangue humano. A máquina de matar homem foi posta em movimento ... Mas o sangue gera sangue ... Testemunhamos o crescimento da amargura da guerra civil, e o crescimento da bestialidade dos homens envolvidos nela ".[84]

A partir de 1920, com a retomada das comunicações entre a Rússia e o resto do mundo, Martov começou a entrar em contato com os membros dos partidos socialistas da Europa, especialmente àqueles ligados ao centro marxista, como Karl Kautsky, Jean Longuet e Friedrich Adler. Martov procurava, com isso, influenciar os socialistas não-russos a pressionar os bolcheviques com o objetivo de reformar o sistema repressivo instalado antes e durante a guerra civil.[85]

Esse esforço, entretanto, não foi bem sucedido, e vários dos socialistas europeus do centro marxista passaram a defender acriticamente as ações bolcheviques, inclusive no Partido Social Democrata Independente da Alemanha (USPD): quando membros do USPD visitaram a Rússia em agosto de 1920 esses se recusaram a visitar o Comitê Executivo do Partido Menchevique. As únicas visitas que Martov receberam foram de Wilhelm Dittmann e Arthur Crispien, da ala direita do USPD, que aproveitaram a oportunidade para convidá-lo a participar do congresso do partido em Halle.[86]

Últimos anos

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Congresso de Halle

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Martov, após receber o convite para participar do congresso do USPD em Halle, ficou receoso em sair da Rússia, com medo de que sua ausência exacerbasse a perseguição aos mencheviques. Martov adiou sua partida da Rússia por mais de um mês após o convite de Dittmann e Crispien. Em outubro Martov conseguiu obter permissão do governo russo para deixar o país legalmente. Nesse momento Martov já estava com a saúde muito frágil e tinha perdido quase que completamente a voz, ao ponto de seu discurso ter de ser lido por Alexander Stein. O seu principal opositor nesse Congresso foi o próprio presidente da Terceira Internacional, o bolchevique russo Grigori Zinoviev.[87]

A revolução russa está doente e não pode ser curda por seus próprios meios. Necessita da influência salutar do proletariado socialista organizado; apenas sob essa influência o proletariado russo conseguirá sair desse beco-sem-saída em que ficou preso.

Martov, "Que o USPD seja preservado"[88]

No congresso, Martov defendeu a não-entrada do USPD na Terceira Internacional, liderada pelos bolcheviques russos. Ao invés disso, rejeitando tanto a aliança com os bolcheviques e com o reformismo, ele defendeu o alinhamento do partido com o centro marxista, com o qual ele já mantinha relações amistosas desde o período da guerra. Segundo ele, a Terceira Internacional era uma tentativa bolchevique de impor a sua dominância absoluta sobre os outros partidos socialistas da Europa, o que era evidenciado pelas 21 condições impostas a qualquer partido que desejasse entrar na organização.[89]

Os bolcheviques, disse ele, tinham ficado desesperados pela impossibilidade de se instalar o socialismo em um país atrasado e insuficientemente industrializado. Esse desespero os tomar todas as medidas possíveis, tanto internamente quanto externamente, para preservar o seu próprio poder: inclusive a deflagração de uma suposta "guerra revolucionária" contra a Polônia e a imposição do terror a todo e qualquer opositor ao regime, incluindo socialistas que estavam apenas expressando suas opiniões de maneira pacífica.[90]

A proposta de Martov acabou não saindo vitoriosa e o congresso apoiou, por 236 votos a 150, que o USPD aderisse à Terceira Internacional. Por conta disso, o partido acabou rachando, com parte dele se integrando ao Partido Comunista da Alemanha (KPD) e a outra parte se recusando a aderir à decisão do congresso, decidindo continuar com a sigla USPD.[91]

Martov não tinha a intenção de permanecer na Alemanha e planejava retornar a Rússia, porém foi obrigado a ficar no exílio após a declaração de ilegalidade do Partido Menchevique, em 1921, após o Décimo Congresso do Partido Comunista.[92]

Digitalização em preto e branco de um jornal escrito em russo. É possível perceber, no cabeçalho, um título em letras garrafais que ocupa duas linhas da capa. O corpo do jornal, por sua vez, é escrito em letras bem menores e é separado em duas colunas.
Capa de edição de 1 de janeiro de 1923 do jornal "Mensageiro Socialista".

Após o Congresso de Halle, Martov se estabeleceu em Berlim, onde fundou, em fevereiro de 1921, o jornal "Sotsialistichesky vestnik" (em português: Mensageiro Socialista), a publicação oficial do Partido Menchevique no exílio. A primeira edição do jornal declarava que os seus objetivos eram: "servir as necessidades do movimento social democrata na Rússia, atualmente privado, graças às políticas do governo bolchevique, de seu órgão de imprense, e informar a opinião socialista europeia ocidental a respeito do desenvolvimento e dos problemas da revolução e do movimento proletário na Rússia."[93] O jornal se tornaria o principal órgão dos mencheviques no exílio e seria editado pelos quarenta anos seguintes.

No exílio Martov passou a defender a unificação das Internacionais de Viena e de Berna, procurando com isso provocar a "intervenção socialista" que forçaria os bolcheviques a reformar o seu domínio sobre a Rússia. Em abril de 1922, a Internacional Comunista (representada por Clara Zetkin, Karl Radek e Nikolai Bukharin) se reuniu com as duas Internacionais Social Democratas em Berlim, onde ela se comprometeu a julgar de forma justa os líderes socialistas revolucionários que então estavam aguardando as suas sentenças, se comprometendo também a não impor a eles a pena de morte.[94]

Pouco tempo após o acordo, Lênin e Trótski o romperam, e várias sentenças de morte foram impostas aos socialistas revolucionários, que não foram executados, mas mantidos como reféns para garantir o bom comportamento dos SRs. Diante do fracasso da sua tentativa de aproximação entre bolcheviques e social democratas, Martov escreveu que "[o] terror russo é, presentemente, o maior obstáculo para o renascimento do movimento operário internacional."[95] A quebra do acordo de Berlim foi o estopim para que as Internacionais Social Democratas iniciassem o processo de unificação, que Martov foi obrigado a aceitar apesar das suas ressalvas. Para impedir a degeneração da Internacional de Viena em uma reunião de partidos nacionalistas, Martov sugeriu que a Internacional continuasse a operar mesmo em tempos de guerra e que a organização fosse a arbitra de conflitos entre os partidos constituintes. As duas Internacionais se unificaram e formaram a Internacional Operária e Socialista em maio de 1923, um mês após a morte de Martov.[96]

Durante o seu exílio na Alemanha a tuberculose de Martov deixou a sua saúde cada vez mais frágil. Em 1921, após o congresso do USPD e a fundação do Mensageiro Socialista, passou quatro meses internado em um sanatório na região da Floresta Negra.[97] Em novembro de 1922 foi internado novamente, dessa vez em um sanatório em Schömberg, de onde seguiu as suas atividades políticas antes de falecer no dia 4 de abril de 1923.[98][99][100]

Notas

  1. No alfabeto círilico, "Ма́ртов". Esse nome foi escolhido por Iuli Tsederbaum por considerar o mês de março (em russo: Март; translit.: "Mart") um mês particularmente revolucionário. A inicial "L." foi escolhida em homenagem à sua irmã, Lidia Tsederbaum.
  2. Na tradição política russa, as palavras "democracia" ou "democracia revolucionária" se refere aos partidos socialistas, nesse caso os bolcheviques, mencheviques e SRs

Referências

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Bibliografia

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Ligações externas

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