Ir para o conteúdo

A Metamorfose

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Para outros significados, veja Metamorfose (desambiguação).
Die Verwandlung
A Metamorfose
Capa de uma edição de 1916
Autor(es)Franz Kafka
Idiomaalemão
PaísÁustria-Hungria (atualmente Chéquia)
IlustradorFranz Kafka
EditoraKurt Wolff Verlag, Leipzig
Lançamento1915
Edição portuguesa
TraduçãoJ. A. Teixeira Aguilar
EditoraEuropa-América
Lançamento1975
Páginas115
ISBN972-23-1652-4
Edição brasileira
TraduçãoChristina Maria Wolfensberger
EditoraVia Leitura
Lançamento2017
Páginas96
ISBN978-85-67097-45-9

A Metamorfose (em alemão: Die Verwandlung) é uma novela de literatura fantástica, ficção e temática existencialista escrita por Franz Kafka entre 1912 e publicada pela primeira vez em 1915. Considerada uma das obras mais importantes da literatura do século XX, a narrativa tornou-se um marco do chamado estilo “kafkiano”, caracterizado pela presença do absurdo, da alienação, da opressão psicológica e do sentimento de estranhamento diante da realidade.

A obra narra a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que sustenta financeiramente a família e vive preso a uma rotina exaustiva de trabalho e responsabilidades. Certo dia, Gregor acorda inexplicavelmente transformado em um inseto monstruoso, fato que desencadeia uma profunda mudança em sua relação com a família e com a sociedade. Enquanto perde gradualmente sua condição humana aos olhos das pessoas ao redor, Gregor enfrenta isolamento, rejeição e crescente desumanização. Escrita em linguagem objetiva e direta, mesmo diante de acontecimentos fantásticos e grotescos, a novela aborda temas como alienação, culpa, identidade, solidão, relações familiares e o impacto das exigências econômicas sobre a vida humana.

Desde sua publicação, A Metamorfose recebeu ampla aclamação crítica e tornou-se uma das narrativas mais influentes da literatura moderna, inspirando adaptações teatrais, cinematográficas e inúmeras interpretações filosóficas, psicológicas e sociais.

Nesta obra, Kafka descreve um caixeiro viajante de nome Gregor Samsa, que abandona as suas vontades e desejos para sustentar a família e pagar a dívida dos pais. Numa certa manhã, Gregor acorda metamorfoseado num inseto monstruoso. Kafka descreve este inseto como algo parecido com uma barata gigante. Nos primeiros momentos, o livro descreve as dificuldades iniciais de Gregor na nova forma. Uma ironia presente neste trecho do livro é que Gregor não se preocupa com sua transformação, mas sim com o fato de estar atrasado para o trabalho.[1]

Quando Gregor, após muitas dificuldades, consegue abrir a porta, todos se assustam, inclusive o gerente, que sai a correr. O pai avança contra ele, forçando-o a entrar de volta no quarto. Após esse episódio, ele é demitido, sua família o rejeita e sua única companhia é ele mesmo. Apenas em alguns momentos a irmã mostra certa compaixão por ele. No decorrer da história, o autor narra as angústias de Gregor, que sem conseguir fazer nada, ouve sua família discutindo entre si como se sustentar, já que a sua única renda havia ido embora. Nisso, Gregor sente uma forte angústia por não poder fazer nada, nem opinar sobre o que fazer. Nesses tempos, Grete vê os rastros de Gregor nas paredes e no teto do seu quarto, então percebe que Gregor tem falta de espaço, assim, ela e sua mãe vão tirar os móveis do quarto dele. O problema é que o inseto foge do quarto, mas ao sair, depara-se com seu pai que o ataca com maçãs, e uma delas penetra as suas costas, causando tanta dor que o faz desmaiar.[2]

No final das contas os Samsa, (sem contar com a opinião de Gregor, claro) decidem alugar um quarto para ter alguma fonte de renda. O quarto é alugado por três inquilinos, que vivem na casa por um tempo. Num certo dia, Grete esquece uma fresta da porta, que ligava a sala ao quarto de Gregor, aberta. Na hora do jantar, Grete tocava o seu violino para os inquilinos. Gregor, do seu quarto, ouve e fica tão encantado com o som que segue em direção à sala de jantar. Nos primeiros momentos, ninguém o percebe, mas após alguns segundos um dos inquilinos o vê e grita. Sr. Samsa tenta afastar os inquilinos de modo que não vejam o inseto e ao mesmo tempo fazer com que a criatura volte para o seu quarto. Depois desse incidente, Grete, a única que ainda via Gregor como seu irmão e não como um monstro horroroso que atormentava a sua família, perde toda a compaixão e chega à conclusão que eles devem se livrar dele.[3]

Personagens

[editar | editar código]
  • Gregor Samsa o protagonista principal da obra. É um caixeiro-viajante responsável por sustentar toda a família. Acorda transformado em um inseto gigante (semelhante a uma barata colossal). Ao longo da história, Gregor passa por um processo de alienação e perda gradual de sua identidade humana.[1]
  • Grete Samsa a irmã mais nova de Gregor. No início da história demonstra compaixão e cuida do irmão, tornando-se a principal responsável por alimentá-lo. Com o passar do tempo, sua atitude muda drasticamente, passando de carinho para repulsa e indiferença. No final, é a personagem que mais se desenvolve, ganhando maturidade e independência.[2]
  • Sr. Samsa (pai de Gregor) o antagonista principal. Antes da metamorfose, vivia ocioso e dependente do filho. Após a transformação de Gregor, torna-se agressivo, autoritário e violento, especialmente na cena em que ataca o filho com maçãs.[3]
  • Os três inquilinos são os três hóspedes que alugam quartos na casa da família Samsa. Representam a sociedade pragmática e impiedosa. Ao descobrirem Gregor, exigem imediatamente a saída da casa, acelerando o conflito final.
  • Sra. Samsa (mãe de Gregor) é frágil e emocionalmente dependente. Sente pena do filho, mas é incapaz de confrontar o marido ou de ajudar Gregor de forma efetiva.
  • Gerente da firma (Chief Clerk) é representante da empresa onde Gregor trabalha. Aparece na primeira parte da história para cobrar a ausência de Gregor e fica horrorizado ao vê-lo transformado.
  • A empregada (charwoman) a servente contratada pela família no final da história. É a personagem que descobre o corpo morto de Gregor e demonstra a maior indiferença em relação à sua morte.

Contexto e desenvolvimento

[editar | editar código]

Franz Kafka escreveu A Metamorfose entre os dias 17 de novembro e 7 de dezembro de 1912, em um curto período de apenas três semanas. Na época, Kafka trabalhava durante o dia em uma companhia de seguros e escrevia à noite. Ele considerava esta obra especialmente importante e temia que qualquer interrupção pudesse prejudicar sua qualidade. A novela foi escrita em alemão, utilizando uma linguagem clara, precisa e com tom neutro, mesmo diante de eventos absurdos; marca registrada do estilo kafkiano.[4]

A obra possui forte caráter autobiográfico. A relação difícil de Kafka com seu pai, Hermann Kafka (homem autoritário e dominador), é refletida na figura do Sr. Samsa. Sua mãe, Julie Kafka, mais passiva, inspira a Sra. Samsa, enquanto sua irmã Ottla serviu de base para a personagem Grete.[5] Outras inspirações incluem a própria experiência de Kafka como funcionário burocrático, o sentimento de alienação (como judeu de língua alemã em Praga) e a pressão das responsabilidades familiares. A transformação de Gregor é frequentemente interpretada como metáfora da sensação de inutilidade e estranhamento que o autor sentia.[6]

A Metamorfose foi publicada pela primeira vez em outubro de 1915 na revista expressionista alemã Die Weißen Blätter. Em dezembro de 1915 (com data impressa de 1916), foi lançada em livro pela editora Kurt Wolff Verlag, na coleção Der Jüngste Tag. Foi uma das poucas obras de Kafka que alcançaram publicação em vida.[7] Antes de morrer em 1924, Kafka pediu que seus manuscritos fossem destruídos, mas seu amigo Max Brod desobedeceu ao pedido, preservando e publicando grande parte de sua obra.[8]

Os principais temas de A Metamorfose são o efeito econômico nas relações humanas, o dever familiar, a alienação, a liberdade, a culpa e a identidade pessoal. Gregor é visto pela família como uma fonte de renda; após a metamorfose, quando perde a capacidade de trabalhar, é rejeitado e negligenciado. A obra mostra como o dever familiar transforma as relações em obrigações frias, sem afeto verdadeiro. Gregor vive em profunda alienação, tanto antes quanto depois da transformação. Sua metamorfose representa uma tentativa frustrada de escapar do trabalho opressivo, mas ele continua aprisionado. Dominado pela culpa, ele acaba morrendo para que a família possa seguir em frente. Por fim, a história questiona a identidade pessoal de Gregor, que viveu sempre para os outros e quase não possuiu uma identidade própria.[9]

Estilo literário

[editar | editar código]

A Metamorfose é narrada em terceira pessoa, com o foco principal nos pensamentos e percepções de Gregor Samsa. O narrador descreve os acontecimentos de forma objetiva e neutra, mesmo diante da transformação absurda do protagonista.[3] Kafka utiliza uma linguagem clara, precisa e direta. O estilo é simples e factual, contrastando com o conteúdo grotesco da história, o que intensifica o sentimento de estranhamento.[2] A obra é dividida em três capítulos, cada parte acompanha uma fase diferente da história: a transformação inicial, o isolamento de Gregor e o declínio final até sua morte, acompanhado pela libertação da família.[3]

Recepção

[editar | editar código]

A Metamorfose recebeu aclamação da crítica. Muitos leitores e críticos destacam sua capacidade de perturbar e fazer refletir sobre temas como isolamento, responsabilidade familiar e perda de identidade. É frequentemente descrita como uma obra curta, porém extremamente impactante, que continua relevante mais de um século após sua publicação. Vários blogs e sites literários a consideram um clássico indispensável.[10][11]

Outras resenhas reforçam o caráter atemporal da obra, destacando sua escrita precisa e a forma como Kafka consegue transmitir angústia e absurdo com extrema simplicidade.[12] A crítica contemporânea elogia a capacidade de Kafka em transformar uma situação absurda em uma poderosa reflexão sobre a condição humana, especialmente a alienação e o colapso das relações familiares.[13]

Impacto cultural

[editar | editar código]

A Metamorfose é uma das obras mais influentes da literatura do século XX, tendo popularizado o adjetivo “kafkiano” para descrever situações absurdas, opressivas e alienantes.[14] A Metamorfose inspirou diversas adaptações e referências culturais ao longo das décadas. Sua imagem central, um homem transformado em inseto, tornou-se um símbolo poderoso, frequentemente citado em produções artísticas, peças de teatro e interpretações modernas.[15]

A influência do conto também se refletiu em numerosas adaptações audiovisuais. Entre elas encontram-se o telefilme Die Verwandlung (1975), dirigido por Jan Němec, o curta-metragem de animação The Metamorphosis of Mr. Samsa (1977), de Caroline Leaf, a produção televisiva The Metamorphosis (1987), dirigida por Jim Goddard, e o filme The Metamorphosis of Franz Kafka (1993), realizado pelo cineasta espanhol Carlos Atanes, que aborda a obra de Kafka a partir de uma releitura cinematográfica própria. [16]Também foram realizadas outras adaptações, como o filme russo Prevrashchenie (2002), de Valeri Fokin, e Metamorphosis (2012), de Chris Swanton.[17]

Referências

[editar | editar código]
  1. 1 2 Kafka, Franz (1915). «The Metamorphosis». Project Gutenberg (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  2. 1 2 3 Corngold, Stanley (2024). «The Metamorphosis». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  3. 1 2 3 4 Bloom, Harold (2025). «The Metamorphosis: Plot Overview». SparkNotes (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  4. Kafka, Franz (1915). «The Metamorphosis». Project Gutenberg (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  5. Corngold, Stanley (2024). «The Metamorphosis». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  6. Bloom, Harold (2025). «The Metamorphosis: Context». SparkNotes (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  7. The Kafka Project (2023). «The Metamorphosis - Publication History». The Kafka Project (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  8. Biography.com Editors (2024). «Franz Kafka Biography». Biography.com (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  9. GradeSave (2024). «The Metamorphosis Themes». GradeSaver (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  10. «A Metamorfose - Franz Kafka». Claraboiar Blog. 23 de janeiro de 2021. Consultado em 24 de maio de 2026
  11. «The Metamorphosis – Franz Kafka (Book Review)». What’s on Sid’s Mind (em inglês). 7 de abril de 2021. Consultado em 24 de maio de 2026
  12. «Book Review: The Metamorphosis by Franz Kafka». Frappes and Fiction (em inglês). 11 de julho de 2022. Consultado em 24 de maio de 2026
  13. «Review: 'The Metamorphosis' by Franz Kafka remarkably stands the test of time». Los Angeles Times High School (em inglês). 2021. Consultado em 24 de maio de 2026
  14. «Kafka's Metamorphosis: 100 thoughts for 100 years». The Guardian (em inglês). 18 de julho de 2015. Consultado em 24 de maio de 2026
  15. Mallick, Spandan (2021). «Kafka's Metamorphosis: Unraveling Identity, Isolation, and the Human Condition». Medium (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2026
  16. «The Metamorphosis of Franz Kafka». IMDb. Consultado em 1 de julho de 2026
  17. Charlotte Tanyi (22 de maio de 2012). «Kafka's Metamorphosis: Story vs. Movie». Consultado em 1 de julho de 2026

Ligações externas

[editar | editar código]
Outros projetos Wikimedia também contêm material sobre este tema:
Citações no Wikiquote
Categoria no Commons