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"50 anos em 5"

Plano de Metas criado por JK foi um marco da economia brasileira

Publicado em 17/02/2006 - 00:01
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Por Renato Marques
"50 anos em 5". Para quem conhece, é difícil esquecer o lema da campanha à Presidência de Juscelino Kubitscheck. "Pegajoso", como se costuma dizer, o slogan representava o desenvolvimento que o Brasil teria sob a condução do político, então governador de Minas Gerais - estado que, sob seu comando, havia alcançado invejáveis índices de crescimento. A estrutura que estava por trás da famosa frase, no entanto, era muito mais complexa do que a sua composição.
Logo após assumir o governo, JK apresentou à população o seu ambicioso "Plano de Metas", composto por 31 setores que seriam o foco do investimento e teriam metas a serem alcançadas durante sua gestão. Não parecia ser fácil alcançar o esperado. Em 1956, após dois governos de Getúlio Vargas (dos quais, mais de 11 anos como ditador) e uma frustrada administração de Eurico Gaspar Dutra, a situação não era das melhores.
Empobrecido, o Brasil tinha 60% da população no campo e, aproximadamente, 30 milhões de brasileiros dependiam da economia agrária. Desta forma, era hora de modernizar o país e investir no desenvolvimento, gerando crescimento e empregos. "A finalidade do plano era consolidar o que começou com Getúlio, o chamado processo de substituição das importações. Assim, a primeira fase foi criar infra-estrutura para que o país pudesse produzir dentro de seu território os produtos de que precisava", relata o professor do Departamento de Economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Claudemir Galvani.
As metas
Veja a seguir os setores que integravam o "Plano de Metas" de JK
  • Energia (metas de 1 a 5)
    Energia elétrica
    Energia nuclear
    Carvão
    Produção
    Refino de petróleo

  • Transportes (metas de 6 a 12)
    Reativar estradas de ferro
    Estradas de rodagem
    Portos
    Barragens
    Marinha mercante
    Aviação

  • Alimentação (metas de 13 a 18)
    Trigo
    Armazenagem e silos
    Frigoríficos
    Matadouros
    Tecnologia no campo
    Fertilizantes

  • Indústrias de base (metas 19 a 29)
    Alumínio
    Metais não ferrosos
    �lcalis
    Papel e celulose
    Borracha
    Exportação de ferro
    Indústria de automóveis
    Indústria de construção naval
    Máquinas pesadas
    Material elétrico.

  • Educação (meta 30)

  • Brasília (meta 31)
Quando eleito, em 1950, Getúlio Vargas decidiu investir na expansão dos setores de siderurgia e energia do país. Sua intenção visava acelerar a industrialização nacional, um movimento que crescia entre países em desenvolvimento. Assim, JK chegou ao poder com a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e a Petrobras em franco crescimento. Com matéria-prima e energia garantida, era preciso investir em manufatura para garantir emprego e expandir o país para o interior. Foi aí que Juscelino fez sua grande aposta: abriu o mercado e criou barreiras protecionistas para atrair a indústria automobilística.
"Para atrair as empresas, o presidente tinha que criar barreiras protecionistas. Com o protecionismo, Juscelino incentivou a entrada de capital estrangeiro no país, principalmente a indústria automotiva", explica Galvani. "A indústria automobilística tem um efeito multiplicador de investimentos muito elevado. Para produzir um carro, você estimula a criação de outras empresas, como fabricantes de pneus, amortecedores, vidros, faróis. Isso fez com que a escolha da empresa automobilística criasse um estímulo muito grande para a chamada de indústrias de auto-peças."
Um novo ator entra em cena: a inflação
A nova situação que se apresentava, no entanto, gerou um impasse. Ao mesmo tempo em que os índices de crescimento do país apontavam para 7% ao ano, JK ouvia acusações de "entreguismo", por ter vendido o país, e de corrupção. "Sobre o aspecto de geração de empregos, avanço da industrialização e mudança de um país agrário para um país urbano, indiscutivelmente foi excelente. Um plano realmente positivo. Mas existem, obviamente, críticas ao modelo adotado", afirma Galvani.
Para conseguir tamanho desenvolvimento em pouco tempo, no entanto, era preciso investir. Muito dinheiro. Principalmente para a construção da nova capital, Brasília. Com o mercado financeiro ainda em parcial dificuldade, JK não teve facilidade para conseguir empréstimos (embora os tenha feito também). Assim, além dos recursos provenientes da entrada de empresas estrangeiras, o governo passou a aumentar a emissão de moeda. Com mais dinheiro em circulação, sem aumento da produção, os preços passaram a subir. Surgiu, então, um "monstro" que assolaria os brasileiros por muitos anos: a inflação alta.
"Juscelino plantou projetos de grande profundidade. Assim como o Getúlio foi o criador da siderurgia, JK deu autonomia energética ao Brasil, indispensável para o desenvolvimento", diz o historiador da UnB (Universidade de Brasília) Octaciano Nogueira. "É lógico que isso não resultou apenas em benefícios. O Brasil é um país sem poupança interna e o resultado deste crescimento foi a inflação. Mas, se você observar o custo/benefício do desenvolvimento da época e a inflação é difícil avaliar. É uma dúvida sem resposta."
Marco histórico
Naturalmente, essa não é a única crítica ao "Plano de Metas". Ao apostar na indústria automobilística, Juscelino praticamente abandonou as estradas de ferro e o desenvolvimento ferroviário. Além disso, havia os críticos do "entreguismo", uma vez que a industrialização brasileira já havia nascido ligada ao capital internacional. No entanto, é preciso dar o destaque merecido à ousadia do presidente. Nunca mais se viu um plano de tamanha envergadura no Brasil.
"JK foi o primeiro presidente que fez um plano de metas elaborado por brasileiros a ser aplicado no Brasil. Não foi o primeiro plano governamental, pois Dutra tinha o plano SALTE (saúde, alimentação, transporte e educação). Mas ele foi elaborado por Brasil e Estados Unidos e financiado pelos americanos", destaca Nogueira. Além do pioneirismo, o "Plano de Metas" foi um marco que mudou o perfil da economia brasileira.
"O plano de metas virou a regra do jogo para o Brasil. Um país que era uma economia agrária, exportadora de café e de açúcar, virou uma economia exportadora de manufaturados, com uma indústria muito forte. Em termos de países em desenvolvimento, temos uma das indústrias mais fortes. Isso tudo se deve ao plano de metas", afirma Galvani. "Quem industrializou esse país foram Getúlio e Juscelino. Eles viraram a mesa. E isso a história não esquece."




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